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  Título
A trilogia da circularidade em Pedro Almodóvar
Autor
Angélica Coutinho
Resumo Expandido
A filmografia do diretor espanhol Pedro Almodóvar inicia-se na década de 1980 e já alcança a marca de 19 longas-metragens ao se considerar “La piel que habito” a ser lançado este ano. Uma trajetória que dá partida com a marca de La movida madrileña, uma revolução libertária política e de costumes, e com a experiência artística desenvolvida em curtas-metragens e grupos artísticos em Madri. Se o estabelecimento da carreira parte da irreverência, de narrativas escrachadas e cômicas, ela encontrará o meio caminho ao estreitar sua proximidade com o melodrama até encontrar a maturidade em tramas como “Carne trêmula” (1997), “Tudo sobre minha mãe” (1999) e “Fale com ela” (2002). A filmografia almodovariana deixa de ser apenas um misto de cores, trilhas românticas, estética kitsch, jogo de erros, mulheres histéricas para tocar mais de perto as relações humanas. Tal caminhar reflete-se também na maneira como as histórias passam a ser contadas voltando-se até mesmo para a própria biografia do autor. Como é amplamente sabido, Almodóvar foi criado em um colégio de padres, cuja relação conflituosa ele ousou revelar em “Má educação” (2004), filme que consolida a ideia de retorno, de olhar para trás, de reavaliar. Algo que se torna mais forte no filme seguinte – “Volver” (2006) – de título explícito e sobre o qual o diretor disse: “a mãe retorna para fazer suas filhas descobrirem e para nos fazer descobrir que o inferno e o purgatório são aqui mesmo, que a justiça entre os seres humanos é possível, mas que é na Terra que precisamos realizá-la”. Os primeiros passos na experiência de desenvolver a ideia de retorno, na verdade, encontram-se em três filmes anteriores aos citados (e, por isso, dissemos anteriormente que “Má educação” era uma consolidação do conceito). “Carne trêmula”, “Tudo sobre minha mãe” e “Fale com ela” compõem o que podemos chamar de trilogia da circularidade. Neles, a ideia de retorno não é apenas a palavra-chave do enredo, mas funciona como base da própria estrutura da narrativa. Deixando de lado uma linearidade que acompanha a trajetórias marcados por conflitos familiares, sexuais, amorosos, os filmes que encerram o século XX e iniciam o século XXI colocam seus personagens em um fluxo circular. Remonta-se à ideia religiosa de ciclos assim como o conceito católico de “e o pó volte à terra, como era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (Eclesiastes 12:7) que implica uma compensação em vida para seus erros, um sensível equilíbrio entre vida e morte. Mas a ideia de circularidade também está presente no conceito de eterno retorno de Friedrich Nietzsche, filósofo alemão, que reintroduz a idéia de fluxo de Heráclito. Vê-se deste ponto de vista um mundo de faces complementares onde o bem e o mal, a angústia e o prazer se tocam apontando também para a origem cristã do filósofo e desenvolvendo ideias como o Amor fati – Amor ao destino. Sobre os panos de fundo religiosos e filosóficos, esta comunicação pretende analisar a circularidade do roteiro dos três filmes mencionados os quais abrigamos na trilogia de circularidade: “Carne trêmula” no qual um jovem rapaz apaixonado por uma “junkie” acaba por ferir um policial que fica paraplégico. O rapaz vai para cadeia e o policial casa-se com a mulher que se recupera. Anos depois, o rapaz sai da prisão aproxima-se da mulher, acaba casando com ela e tendo um filho. Ser filho também é uma questão em “Tudo sobre a minha mãe” no qual uma enfermeira após perder seu filho adolescente atropelado, reconstrói sua vida junto a mulher que indiretamente foi o pivô do acidente. Acaba também se aproximando de uma mulher soropositiva que está grávida do pai de seu filho e morre ao dar a luz. Retorna aos braços da protagonista um filho do mesmo homem que gerara o seu. Em “Fale com ela”, é também um filho que vai trazer de volta à vida uma mulher em coma. Em um entrelaçamento ainda mais complexo, a cena final insinua uma nova relação amorosa a se estabelecer entre o homem que ajuda o pai da criança.
Bibliografia

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VAZ, Paulo R. G. Um pensamento infame. Rio de Janeiro: Imago, 1992.