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  Título
Indagações em torno do tema no documentário brasileiro contemporâneo
Autor
ana rosa marques
Resumo Expandido
Tradicionalmente, no documentário o tema é a força motriz do filme, o mecanismo que leva-o adiante, dando um tom e a emoção e conectando histórias específicas a outras tantas através dos espaços e tempos. A importância do tema remonta às origens da tradição documental. Crente no poder verista da imagem, o produtor e teórico inglês John Grierson dizia que “o documentário nada mais exige do que transportar para a tela, por qualquer meio, as preocupações de nosso tempo, tocando a imaginação através do maior número possível de detalhes”.

Esse princípio norteador incutiu por muito tempo nos realizadores um sentimento de responsabilidade social que justificaria o falseamento das relações do cineasta com a obra e suas potencialidades expressivas, criando ainda uma distinção e hierarquia da mensagem sobre a poesia, do conteúdo sobre a forma.

No Brasil, até os anos 60 a preocupação temática influenciou bastante a produção documental em detrimento do desenvolvimento de novas linguagens, de uma reflexão sobre a construção das representações dessas temáticas ou sobre as relações do cineasta com elas.

A partir da década de 70, alguns realizadores começam a se contrapor em relação à hierarquia temática, a exemplo de Arthur Omar. Em seus escritos teóricos e algumas de suas realizações Omar advoga por uma espécie de anti-documentário, que se “relacionariam com seu tema de um modo mais fluido e constituiriam objetos em aberto para o espectador manipular e refletir. O anti-documentário procuraria se deixar fecundar pelo tema, construindo-se num combinação livre de seus elementos”. Ao invés de uma negação total do tema, Omar estava propondo um novo papel para ele dentro da obra fílmica.

Embora o documentário brasileiro contemporâneo ainda se ocupe principalmente da exposição de temas urgentes da realidade brasileira, algumas experiências vem deslocando o papel e o funcionamento do tema dentro dos filmes. Há filmes que priorizam a experimentação da linguagem ou a descoberta de novas formas documentais. A proposta desta comunicação é discutir qual seria então o papel e o modo de funcionamento do tema em alguns filmes que minimizam ou relativizam a importância temática e o que esta atitude representa do ponto de vista politico já que o gênero sempre reivindicou para si um papel importante na arena de debate social, elegendo temas de interesse ou debate coletivos.

No chamado documentário de dispositivo, o tema não necessariamente tem que ser aquele que advém de realidade pré-existente que ao cabe ao filme apreender. Ele pode surgir de um artifício que o diretor usa para gerar uma história. Em 33, de Kiko Goifman, por exemplo, o cineasta de 33 anos e filho adotivo, estabelece 33 dias para encontrar sua mãe biológica. Neste caminho ele toca em temas como a situação da mãe solteira no Brasil, relações familiares, adoção, relação do público/privado. Esses temas aparecem de uma maneira fluida, sem pretender um esgotamento, sem buscar uma lógica expositiva e de maneira mais fragmentária.

Essa fragmentação aparece também em filmes que embora partam de um tema, buscam tratá-lo de um modo menos lógico, linear e explicativo, através de uma experimentação de linguagem e de um esforço em abordar a experiência do outro de uma maneira mais plástica e sensorial. Em Aboio, filme de Marilia Rocha, aborda o canto do aboio, dialogando com uma diretriz clássica do documentário nacional que é a preservação de nossas tradições. Mas se o filme transmite poucas informações e dados sobre essa cultura, tão típico de documentários com o mesmo gênero temático, por outro lado convida o espectador a observar o cotidiano do vaqueiro, a relação do homem com a natureza através de imagens e sons disformes ou retrabalhados ou por uma combinação dissonante entre imagem e som revelando assim uma forte influência experimental.



Bibliografia

- BRASIL, André. “Quando as palavras cantam, as imagens deliram”. Revista Cinética (www.revistacinetica.com.br/aboioandarilho.htm).

- BURCH, Noel. “Temas de não ficção”. In: Noel Burch. Práxis do cinema. São Paulo: Perspectiva, 1992.

- EDUARDO, Cléber. “DOCTV: uma outra percepção do documentário na TV”, Revista Cinética (www.revistacinetica.com.br/doctv.htm).

- LINS, Consuelo. “O filme dispositivo no documentário brasileiro contemporâneo”, in Sobre fazer documentários. São Paulo, 2007.

- LINS, Consuelo. MESQUITA, Cláudia. Filmar o real. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

- NICHOLS, Bill. “De que tratam os documentários?”. In Bill Nichols. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2005.

- OMAR, Arthur. O antidocumentário, provisoriamente. Cinemais, n.08, Rio de Janeiro, 1997.

- WINSTON, Brian. Towards a post-griersonian documentary. In: _. Claiming the real: the documentary film revisited. London, BFI: 1995.