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  Título
Suspensão e desvio em John Cage. Análise da obra fílmica The One
Autor
Marcia Ortegosa
Resumo Expandido
Análise de One



A luz é o ator principal no filme One. A narrativa é o trajeto suspenso da luz num espaço vazio, sem atores, sem objetos cenográficos. As imagens num movimento suave, sem gravitação, deslizam sob uma grua, em fluidez, lembrando um vôo dentro das nuvens ou subaquático. Nesse espaço, presença e ausência são sinônimos, pois se há luz, seu negativo também se presentifica por meio da sombra. Se em termos visuais a luz torna-se elemento central, a sonoridade se apresenta por meio de uma música atonal que preenche o vácuo, carregando-o de tensões sem resolução.

No último filme de Cage, o artista retoma o tema do silêncio de modo visceral, impregnando-o de um movimento multissensorial, que resultou na composição óptica sonora (audiovisual) One. A observação analítica de One pode ser pensada a partir do entendimento que não há uma trama. Só um espaço sonoro preenchido por ondas eletromagnéticas sonoras e visuais em movimento. Tanto o movimento como a luz são perceptos, pura qualidade. A imaterialidade guia nossa percepção ao ícone (Peirce, 1980) sonoro, numa tentativa de promover um exercício que atinja o sensorium.

O filme One é um longa metragem com 90 minutos de duração em preto e branco. As pistas de som e de imagem são independentes tal qual o conceito de contraponto formulado pelo teórico e compositor Michel Chion. Segundo Chion o “contrapunto audiovisual” é justamente essa relação de divergência entre o som e a imagem. (idem, 1993: 42). A sincronicidade entre som e imagem no filme One quando ocorre é aleatória.

O som tensivo, dissonante, sem direção, sem lugar, sem centro, não encontra repouso. A imagem marcada pela repetição de um elemento único: a luz gera saturação e angústia. Como um barco solitário a deriva no alto mar. Sem gravidade. Apenas flutuando sem porto de chegada. A multidirecionalidade do som se justifica sob este viés. Todas as rotas não chegam a lugar algum. As paredes fecham o ambiente e devolve a sombra, as matizes cinza, o preto total e o branco reluzente. O esvaziamento dos sentidos é pleno.

Da observação do objeto fílmico One chega-se a algumas inferências que a peça audiovisual parece reiterar: o vazio e o silêncio, porém tenso e repleto de intervenções ruidosas. Os contrastes são elementos presentes: som e imagem independentes; branco e preto se polarizam, ora em matizes suaves, ora de modo acentuado em variações polarizadas. Além disso o som estabelece ausência de regularidade e de periodicidade. No aspecto sonoro não há um retorno a um centro (tonal). A suspensão se mantém ao longo da peça audiovisual, levando-a a uma ausência de repouso e de retorno a um lugar, ou seja, um vagar errante do som e da imagem numa cadência cinética que segue apenas o acaso e as leis do I Ching, numa lógica aleatória.

O silêncio é esse repleto de intervenções timbrísticas ruidosas, de tensas microfonias. Não há referenciais identificatórios. Não há repouso tensivo já que a atonalidade cria acordes dissonantes em suspensão contínua. O espaço visual é descentrado: o cenário é formado por três paredes que vão definir sua arquitetura num diagrama ovalado, marcado pela ausência de quinas. A base sonora (horizonte) não se sustenta na ausência de gravitação já que o movimento sem direção e sem retorno a um lugar nos direciona a um tempo dilatado e angustiante. A constante mutação ótica-visual, nas matizes da luz nos conduz a tensão.

O vazio, o silêncio e o nada. O som não deve representar nada, a não ser ele próprio, segundo Cage. Esse tema remete ao Zen e o artista perseguiu durante toda sua vida. A mesma premissa vai ser transposta para as imagens. A tentativa de perseguir o absoluto é deslizante. No máximo em alguns momentos as matizes imagéticas assumem um preto ou um branco total. Mas o silêncio total não existe. Cage já experienciou e sabe que esse dado trata-se de uma operação impossível. Nessa obra One as imagens e os sons se encontram em constante mutação, nunca em silêncio absoluto.
Bibliografia

CHION, Michel. El sonido. Barcelona: Editorial Paidós, 1999.

______________. La audiovisión. Introducción a un análisis conjunto de la imagem y el sonido. Ediciones Paidós Ibérica, S.A, 1993.

MOSCARIELLO, Angelo. Como ver um filme. Lisboa: Editorial Presença, 1985.

MORAES, J. JOTA DE. O que é música. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

RODRIGUEZ, Angel. A dimensão sonora da linguagem audiovisual. São Paulo: Editora Senac, 2006.

RUSH, Michael. Novas mídias na arte contemporânea. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

SCHAFER, Murray. A afinação do mundo. São Paulo: Editora UNESP, 2001.

_________________. O ouvido pensante. São Paulo: Editora UNESP, 1991.

PEIRCE, Charles Sander (1980). Sobre a justificação científica de uma conceitografia; Os fudamentos da aritmética. São Paulo, Abril Cultural.

WISNIK, José Miguel. O som e o sentido. Uma outra história das músicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.