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  Título
Imaginário e sexualidade: análise a partir de Comícios de amor (1964)
Autor
Jhessica Francielli Reia
Resumo Expandido
Nem sempre muito reconhecido dentre as numerosas obras fascinantes do diretor italiano Pier Paolo Pasolini, o documentário 'Comícios de Amor' (Comizi d'Amore), realizado em entre 1963 e 1964 possui inúmeras questões a se debater, pois traz à tona os reflexos da sociedade italiana da década de 1960 tentando se auto interpretar em um dos assuntos mais polêmicos de serem abordados: sexualidade. O documentário é dividido em quatro partes, chamadas de 'Richerche', em que o diretor, com um microfone na mão e uma câmera, viaja pelas regiões da Itália – de praias a portas de fábricas – questionando homens e mulheres, jovens ou idosos, de classes mais abastadas ou operários, sobre o que ele chama, de maneira geral, de 'problemas do sexo': abrangendo casamento, adultério, divórcio (até então proibido no país), prostituição e homossexualidade. O documentário é interessante, primeiramente, por fazer um retrato do Pasolini e suas inquietações a respeito do assunto, deixando transparecer suas percepções sobre o tema e o povo italiano - que segundo ele, era representado pelos indivíduos da nova Itália, caracterizados pelo enaltecimento da produção e do consumo, onde tudo virava mercadoria passível de de ser consumida, inclusive o sexo (AMOROSO, 2002). Comícios de Amor dialoga com uma tendência surgida ainda no século XVIII, apontada por Foucault (2006), da incitação política, econômica, técnica e cultural a se falar do sexo, transformando-o em discurso não mais moralmente condenável, mas racionalmente exposto e estudado. Apesar do tema da sexualidade ser abordado – de maneira mais velada ou expansiva – em muitos filmes do diretor, em Comícios de Amor assume uma forma sólida e realista, que mostra o peso da ignorância, do machismo e dos tempos arcaicos sob a moderna Itália que se consolida cada vez mais como referência no mundo capitalista. E tirando os especialistas convidados para debater o tema entre uma cena e outra – o escritor Moravia e o psicanalista Musatti, por exemplo – ninguém mais tem muita clareza sobre sua identidade e percepção de amor e sexo, vaidade, autonomia, isonomia de sexos e relações interpessoais; o que se vê, na verdade, de norte a sul, é um país ainda assombrado pelos fantasmas da hipocrisia, preconceito e ignorância dos séculos passados, assim como pelo medo de se expor e a confusão existente na construção de uma identidade sexual. Com uma observação cuidadosa, pode-se entrever espaços de comparação com questões atuais que estão presentes no debate público e no imaginário brasileiro, que muitas vezes de modo dissimulado, invisível, também é assombrado por esses fantasmas e pela dificuldade de construir sua imagem afetiva e sexual.

Bibliografia

AMOROSO, M. B. Pier Paolo Pasolini. São Paulo: Cosas & Naify, 2002

FOUCAULT, M. A História da Sexualidade 1: a Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal, 2006.

_______. A História da Sexualidade 2: o Uso dos Prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 2007.

_______. A História da Sexualidade 3: o Cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal, 2005.

LOYOLA, M. A. A sexualidade nas ciências humanas. Rio de Janeiro: EdUerj, 1998.

MARCUSE, H. Eros e a Civilização. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

NAZARIO, L. Todos os corpos de Pasolini. São Paulo: Perspectiva, 2007.

NICHOLS, B. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2005.