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  Título
"Onda Nova": cinema paulista e sujeito pós-moderno
Autor
Mauricio Reinaldo Gonçalves
Resumo Expandido
A década de oitenta presenciou, no Brasil, o fim da ditadura militar e o avanço do processo de reconquista dos direitos civis por parte da sociedade brasileira. Se durante as décadas de sessenta e setenta o foco dos discursos da cultura tinha sido a luta pela liberdade de expressão, a reconstrução da democracia e o fim das arbitrariedades perpetradas pelo regime ditatorial, nos anos oitenta, boa parte da produção cultural brasileira voltou-se para a discussão de temas anteriormente deixados em segundo plano: a liberdade sexual, a luta pela emancipação da mulher, pela igualdade racial e pelo respeito à diversidade de orientação sexual. A sociedade brasileira via-se, finalmente, diante de propostas de discussão de uma nova cidadania que passava a lidar com um novo sujeito, capaz de integrar-se nas múltiplas demandas de seus interesses e de suas necessidades como sujeito social. Um sujeito que Stuart Hall (2002) chama de descentrado, fragmentado em suas identificações e em seus papéis sociais, fruto de mudanças estruturais que transformaram as sociedades modernas no final do século XX, entre elas, a brasileira.

Na cultura brasileira, a música pop, o teatro, o cinema e até mesmo a televisão voltaram-se, em graus diferentes, para esses novos temas que “assaltavam” o novo sujeito que se formava. No cinema, a trilogia paulista de José Antonio Garcia e Ícaro Martins – O Olho Mágico do Amor (1981), Onda Nova (1983) e Estrela Nua (1984) – é um bom exemplo da apropriação do tema pelos discursos da cultura. Nesta comunicação, pretendo analisar o filme Onda Nova, observando nele aquilo que pode evidenciar a representação desse sujeito sobre o qual fala Stuart Hall, constatando sua multiplicidade e seu descentramento. Pretendo observar como o filme de Martins e Garcia lida com a construção das identidades de gênero, raça e sexualidade, como reconfigura os papéis sociais e reorganiza os signos que dão conta dessas identidades e desses papéis, nesse novo contexto histórico e social que a vida brasileira desenha nos anos oitenta. Em Onda Nova, a ambivalência de papéis, de identificações, de posicionamentos na sociedade são explicitados dentro da cultura jovem paulista, apresentando ao público, e especialmente aos jovens que emergiam das impossibilidades impostas pela ditadura militar, uma série de possibilidades de ação, de representação e de convivência no tecido social que se reformulava. Onda Nova atua, então, como um produto cultural dos meios de comunicação que não só reflete a realidade, mas também atua na formação do mundo que representa, como que confirmando as palavras de S. Hall (1996), de que as coisas do mundo são, em parte, constituídas por como são representadas.

Bibliografia

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