/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
O apostolado do cinema no Brasil: da censura aos cineclubes
Autor
Raquel Costa Santos
Resumo Expandido
Assim que o cinema passou a se constituir um importante meio que viria a marcar as sociabilidades do século XX, a Igreja Católica o encarou como um corruptor de almas e se viu impelida a adotar diversas atitudes de precaução e vigilância. Entretanto, na impossibilidade de conter a influência que a sétima arte começou a exercer a na vida das pessoas e dos grupos, a instituição religiosa logo passou a tomá-la como instrumento moral, moralizador e educador. Essa concepção demandou que a Igreja implementasse organismos e documentos internacionais, para dar conta das diretrizes para os católicos de todo o mundo. No Brasil, como em outros países, ecoaram as ordens e as ações da hierarquia católica, e baseadas nelas, mas também para além delas, configurou-se um apostolado cinematográfico, com atuação em diversos estados, sobretudo até a década de 1960. Entre as implementações, destacam-se, num contraponto às ações de censura, os órgãos nacionais para difusão, pesquisa e educação cinematográfica e as iniciativas que se desenvolviam localmente, em paróquias, escolas e universidades, como os cursos, que iam do básico ao superior, e os cineclubes, que constituíram importante frente no cineclubismo brasileiro.



Autores como Montero (1991) caracterizam como restrita a atuação da Igreja no campo do cinema durante a primeira metade do século XX. Esta afirma que, até os anos 1930, o papel estava restrito ao controle e classificação das produções cinematográficas saudáveis para a fé cristã, inclusive defendendo o papel censurador do Estado. A autora avalia ainda que a atuação da Igreja no campo do cinema limitou-se, até o final dos anos 1950, à organização de um círculo próprio de salas de exibição de filmes considerados “saudáveis” para a formação dos operários e estudantes e à elaboração de uma crítica sistemática, segundo os padrões da moral cristã, dos filmes divulgados para o grande público. Deste ponto de vista, a falta de importância do trabalho da Igreja com o cinema estaria relacionado a ausência de ações ligadas à institucionalização, à produção e/ou à profissionalização da crítica, o que teria sido, no mais das vezes, uma relação “circunstancial e marginal” e que só teria começado a mudar a partir da década de 1960, com o Concílio Vaticano II (1962-1965) e do decreto de 1966, que elimina a força de lei eclesiástica da classificação e censura aos filmes (MONTERO, 1991, p. 234-239). Para outros autores, como Alcântara (1990), é somente a partir dessa mudança de perspectiva que a Igreja passa a ver a utilização do cinema como instrumento de catequese e evangelização, mas que, ainda assim, as ações tinham pouco alcance.



No contraponto às concepções apontadas por Montero e Alcântara, pode-se perceber, a partir dos levantamentos feitos acerca das ações da Igreja relacionadas ao cinema, que este trabalho não se restringia à implantação de pouco duradouras salas de cinema, à censura e à não-visão do cinema como instrumento de educação. É preciso considerar a importância, desde a primeira década do século XX até os anos de 1960, das práticas e trajetórias ligadas à Igreja Católica de promoção, difusão e consumo, que contribuíram para que o cinema fosse um importante meio de formação cultural para indivíduos e grupos.



Assim, a despeito de todo o relevo que é dado ao trabalho censor da Igreja na primeira metade do século XX, em detrimento de outras ações que foram desenvolvidas, é bastante vigoroso o fato de que os seus órgãos representativos também empreenderam esforços para a formação cultural e educacional para o cinema. Aliados a eles e às suas diretrizes gerais, iam se desenvolvendo as atividades sob a iniciativa dos clérigos e dos leigos, o apostolado do cinema no Brasil, num trabalho que seguiu, mas também excedeu as diretrizes hierárquicas. A esse respeito são bastante ilustrativos os exemplos sobre iniciativas em diversos estados brasileiros, como Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Piauí, Paraíba e Bahia.
Bibliografia

ALCÂNTARA, Maria Aparecida Beldi de. Cinema, Quantos Demônios (A relação da Igreja com o cinema). Vol. 1. Dissertação (Mestrado) – Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1990.



DALE o.p., Frei Romeu (org.). Igreja e Comunicação Social. São Paulo: Edições Paulinas, 1973.



EQUIPE DE REFLEXÃO DO SETOR DE COMUNICAÇÃO DA CNBB. Comunicação e Igreja no Brasil – Estudos da CNBB 72. São Paulo: Paulus, 1994.



MONTERO, Paula. A comunicação nos documentos da Igreja. In DELLA, CAVA, Ralph e MONTERO, Paula. ...E o verbo se faz imagem: Igreja Católica e os Meios de Comunicação no Brasil: 1962-1989. Petrópolis: Editora Vozes, 1991. p.130-158.



SANTOS, Raquel Costa. Lição de Coisas: Igreja Católica e Formação Cultural para o Cinema no Brasil e na Bahia. Dissertação (Mestrado) – Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2009.