/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Em 1942: vivendo num trem postal.
Autor
Andre Piazera Zacchi
Resumo Expandido
Em 1942, Alberto Cavalcanti recusa o posto de diretor da Crown Film Unit, departamento de filmes de guerra do governo inglês. Com 45 anos e há 28 na Europa, tinha uma carreira sólida na Inglaterra e já era famoso no continente. Na França, participou da avant-garde, e na ilha havia coordenado com Grierson a divisão de filmes do G.P.O. (General Post Office), destacando-se nas pesquisas com som e montagem. Cavalcanti não aceita trocar de nacionalidade, requisito fundamental à ocupação de tal posição estratégica. Apesar de ter vivido mais tempo na Europa do que no Brasil, Alberto Cavalcanti considerava-se brasileiro. Em 1936, Night Mail, o famoso filme sobre o correio inglês, reúne três grandes artistas gays do século XX, que se tornam amigos: o músico britânico Benjamin Britten, o poeta inglês Wystan Hugh Auden e o cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti. Com que imagens Cavalcanti participa desse encontro? O que há de colonial nessas imagens? Em 1942, Alberto Cavalcanti filma Went the Day Well? nos estúdios da Ealing. No enredo do filme, alemães disfarçados de soldados ingleses ocupam um vilarejo pacato e isolado no interior da Inglaterra. A senhora que coordena o correio local é quem descobre a farsa, quando os alemães marcam os pontos de um jogo de cartas num de seus telegramas. Ela percebe que, ao grafarem o numero sete, o fazem cortando-o, procedimento não-insular, logo inaceitável para soldados ingleses (estratégia narrativa semelhante àquela adotada por Quentin Tarantino em Bastardos Inglórios). Há uma marca, um traço que barra os soldados alemães da pretensa cidadania inglesa. Marca descoberta justamente pela coordenadora do Post Office. Há uma modernolatria explícita em Night Mail, uma ode à técnica e à soberania, duas das obsessões modernas. Cavalcanti era o técnico do som, o montador, o decorador, o diretor. Pretendo investigar as imagens desse período procurando as cifras de um cineasta apaixonado pela técnica, competente em seu uso, mas forte em seu propósito de afirmar-se brasileiro.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Signatura rerum. Buenos Aires, Adriana Hidalgo, 2009. ANTELO, Raul. Transgressão & Modernidade. Ponta Grossa: Editora UEPG, 2001. CALDIERI, Sergio. Alberto Cavalcanti: o cineasta do mundo. Rio de Janeiro, Teatral Dezesseis, 2005. CAVALCANTI, Alberto. Filme e Realidade. Rio de Janeiro, Embrafilme, 1976. CHARNEY, Leo e SCHWARTZ, Vanessa R. O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo, Cosac & Naify, 2001. DELEUZE, Gilles. Proust e os signos. Tradução de Antonio Piquet e Roberto Machado. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2010. GUMBRECHT, Hans Ulrich. Em 1926: vivendo no limite do tempo. Rio de Janeiro, Record, 1999. PELIZZARI, Lourenço e VALENTINETTI, Cláudio M. Alberto Cavalcanti: Pontos sobre o Brasil. São Paulo, Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 1995.