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  Título
Cinema, história, comida: possíveis relações em Estômago, o filme
Autor
Uliana Kuczynski
Resumo Expandido
A presença de filmes pautados na gastronomia projeta-se como um considerável atrativo à indústria cinematográfica, sobretudo a partir do emblemático A Festa de Babette (Gabriel Axel, DNK/FRA, 1987). São obras cujos enredos ou desfechos são centrados no ato de sentar-se à mesa; na figura do cozinheiro e seu talento; ou ainda ambientados nos restaurantes; o que permite congregá-las em um específico “gênero da comida”, pois apresentam uma estrutura comum, reconhecível, e vendável. “Da comida” porque aqui ela é entendida no seu sentido mais abrangente, como uma categoria histórica cujas relações culturais, de poder, seus valores simbólicos ou econômicos, encerram esse conceito, pois, que excede o nutricional. E é assim que ela aparece (também) em filmes como Estômago. A co-produção ítalo-brasileira de Marcos Jorge, de 2007, narra a “ascensão social” do protagonista Raimundo Nonato devido ao seu talento culinário, de modo que a narrativa se desenvolve através das conquistas do protagonista: um emprego, outro melhor emprego, a paixão da prostituta glutona Íria, e, na cela onde é ambientado parte do filme, Nonato também conquista espaços representativos de poder. Tudo devido às suas habilidades que garantem até mesmo à “baixa-gastronomia” a competência de seduzir o paladar dos que o cercam – representado com apetitosa fotografia e suave musicalidade. Estômago não deixa de versar questões comuns ao contexto brasileiro de fins do século XX/ início do XXI, como o êxodo rural, a lotação do sistema carcerário(estas mais ácidas) e que aparecem nas temáticas do cinema da Retomada. Porém, mesmo com sua visceralidade específica, a ênfase na questão da comida chama a atenção para pensá-lo em termo mais abrangentes. Pois o Cinema, como é sabido, permite compreender costumes, visões políticas, econômicas e culturais sobre determinado período; tanto ao que é reportado na narrativa quanto ao período de criação do filme. Como em Estômago ambos são contemporâneos, investigar suas condições de produção, circulação e recepção é crucial para alicerçar a compreensão do sentido do filme, considerado na sua relação com a sociedade que o produz e o consome, uma vez que esse bem de consumo simbólico está imerso no imaginário de seu tempo. Assim, a comida aparece como um tema atrativo às críticas e ainda em algumas Mostras de que o longa-metragem participara (servindo as iguarias do filme). A circulação pelos Festivais em que fora (36 vezes) premiado, e a co-produção são táticas que se levantam no cinema da Retomada para promover as produções brasileiras em âmbito internacional, gerenciadas pela ANCINE - já que o consumo interno ainda é restrito. A busca por uma linguagem transnacional e qualidade técnica, também visando o maior alcance de público mas demonstrando o profissionalismo apurado, são características da cinematografia atual. Estas perceptíveis na recepção do longa, que tem o cuidado de contar, na equipe, com profissionais da gastronomia – também representada no rol de obras supracitado. Tais representações estão imersas na realidade atual. Não apenas na proliferação de best-sellers e programas televisivos que enfocam a comida de maneira “espetacular”. Notem-se os debates sobre obesidade, vegetarianismo; as preocupações em resgatar/enraizar tradições culinárias, cozinhas regionais e internacionais; o movimento slow-food frente à proliferação e sedimentação do fast-food no frenético cotidiano urbano; características constantes nas décadas finais do século XX. Ora, em contexto muito próximo, o Cinema se presta a enfatizar o mesmo tema, com algumas especificidades em encenar as raras refeições em família, no lar; as sociabilidades e hierarquias daí decorrentes, ou do âmbito maior de um restaurante; a figura do cozinheiro/chef e seu talento/status na sociedade; o preparo de alimentos típicos, ou populares coxinhas... Elementos justapostos, re-significados, tensionados pela relação Cinema/História, inclusive da “história gastronômica” de Estômago.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. Dicionário teórico e crítico de cinema. São Paulo: Papirus, 2003. CARNEIRO, Henrique. Comida e sociedade: uma história da alimentação. Rio de janeiro: Elsevier, 2003 FERRO, Marc. O filme: uma contra-análise da sociedade? In: LE GOFF, Jacques e NORA, Pierre (Org). História: Novos Objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. MARSON, Marina Izar. Cinema e Políticas de Estado: da Embrafilme à Ancine. São Paulo: Escrituras, 2009. ROSENSTONE, Robert A. A história nos filmes – Os filmes na história. São Paulo: Paz e Terra, 2010. SANTOS, Carlos R. Antunes. A Alimentação e o seu lugar na História: os tempos da memória gustativa. História: Questões & Debates. Curitiba, nº 40, p.11 - 31, Editora UFPR, 2005. XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984 ____________ O cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001