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  Título
A produção de subjetividade no cinema de bolso: cartas x diários
Autor
Kênia Cardoso Vilaça de Freitas
Resumo Expandido
Passar do cotidiano para o discurso, da vida para a narrativa: segundo Michel Foucault, esse é um movimento que remonta à Grécia Antiga. Foi na Antiguidade clássica que o autor encontrou os primeiros registros do que chamou de técnicas de si: procedimentos existentes em todas as civilizações que são propostos aos indivíduos para fixar, manter ou transformar suas identidades. Seria uma arte da existência, no sentido de que a vida é tratada como uma obra portadora de valores estéticos e de estilo. Mas Foucault ressalta que não se trata de práticas inventadas individualmente por um sujeito; e, sim, de “esquemas que ele encontra em sua cultura e que lhe são propostos, sugeridos, impostos por sua cultura, sua sociedade e seu grupo social” (FOUCAULT, 2006b, p. 276). De certa forma, os filmes feitos com celular podem ser pensados como um desses esquemas contemporâneos, pois, por meio das imagens, seus realizadores escrevem-se.



Para tentar entender as diversas práticas contemporâneas que em alguma medida se voltam para investigações subjetivas, tomamos emprestado o termo espaço biográfico, de Leonor Arfuch. A expressão nos parece interessante para contextualizar culturalmente os filmes de feitos com celular que se voltam para práticas de autorrepresentação. O espaço biográfico abarca múltiplas formas, gêneros e expectativas. Em comum, essa inquietação em relação ao íntimo, ao cotidiano, ao vivido.



Nesse sentido, dois subgêneros nos parecem privilegiados pelos filmes feitos com celular (filmes de bolso): a carta e o diário. Ambas modalidades de escrita foram, segundo Foucault, essenciais para as práticas das técnicas de si. Para o autor, além das cadernetas pessoais, que permitiam a construção de si por meio da anotação de discursos de outros; a correspondência também está na origem das técnicas de si (FOUCAULT, 2006b, p. 157).



A construção do relato de si vem da comunicação, do contar-se para outro. Raymond Bellour acredita que carta-vídeo, por sua vez, possibilitaria uma troca “real” entre as pessoas. Para o autor, o mesmo não é válido para o cinema tradicional. Neste, a carta seria uma via de mão única: “E mesmo quando designa um interlocutor supostamente “verdadeiro”, tendendo por isso a multiplicar-se, fragmentar-se e, portanto, a relativizar-se, ela sempre aponta para um ponto de fuga ideal, um lugar vazio em torno do qual suas palavras poderiam se reunir, porque foi aí que nasceram“(BELLOUR, 1997, p. 294).



Por outro lado, a carta e o diário em vídeo, pela sua cotidianeidade e sua composição de materiais diversos de forma mais livre, tornaria possível um retorno, uma conversa. Será que o mesmo acontece com as experiências de bolso? Esse é um dos aspectos que analisaremos a partir dos filmes: "Mes voyages" (www.festivalpocketfilms.fr/films/article/mes-voyages), de Takako Yabuki, no qual uma jovem relata a solidão de suas viagens enviando vídeos-mensagens para a sua família, e "Lettre à Basile (www.festivalpocketfilms.fr/films/article/lettre-a-basile), de Valéria Young, em que a realizadora do Chile escuta as vozes de sua infância numa carta enviada a seus pais por seu tio, enquanto faz imagens de seu percurso no metrô parisiense. No fim ela oferece a combinação de sons do passado e imagens do presente ao seu marido, como uma carta filme.



Em ambos os filmes temos a relação familiar como ponto de partida. Em "Mes voyages" temos um diário que oscila entre o registro do epistolar e o do confessional. Nesse sentido, como sugere Foucault, a interlocução com o outro é uma forma de se conhecer melhor, de construir um processo de subjetivação. É preciso interlocução imaginária com sua família para que a diretora se questione. Já "Lettre à Basile" é um filme feito de vários deslocamentos: do Chile à França; do passado ao presente; do corpo da realizadora pelo metrô. Temos um processo de subjetivação que passa por duas cartas. Mas, nesse caso, mais do que definir uma individualidade, esse processo é de construção coletiva familiar.
Bibliografia

ARFUCH, Leonor. El espacio biográfico. Dilemas de la subjetividad contemporánea. Argentina: Fondo de Cultura Económica, 2002.

BELLOUR, Raymond. Entre imagens: foto, cinema, vídeo. Campinas, SP: Papirus, 1997.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

_______________. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 1992.



FOUCAULT, Michel. Dits et écrits IV. Paris: Gallimard, 1994.

__________________. Estrategia, poder-saber. Rio de Janeiro: Forense Universitaria, 2006a.

__________________. Etica, sexualidade, politica. Rio de Janeiro: Forense Universitaria, 2006b.

LEJEUNE, Philippe. “Le pacte autobiographique (bis)”. In: Poétique 56. Paris: Seuil, 1983.

PARENTE, André. Tramas da rede: novas dimensões filosóficas, estéticas e políticas da comunicação. Porto Alegre: Sulina, 2004.

SCHEFER, Raquel. El Autoretrato en el documental: figuras, máquinas, imágenes. Buenos Aires: Catálogos, 2008.