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  Título
Apropriação de gênero: ficção x documentário. Filme Cloverfiel Monster
Autor
Luiz Philipe Fassarella Pereira
Resumo Expandido
Estabelecer uma relação entre gêneros da produção audiovisual, documentário e ficção, tem sido um mecanismo utilizado por diretores para extrair reações autênticas do espectador. Vezes o espectador se depara com uma produção que se apropria de características estilística do gênero documentário (voz over, inserção do diretor na história, entrevista com personagem social e etc.) mas, que na verdade, trata-se de uma ficção, história irreal. “Tais obras passaram a ser chamadas de monckumentaries (falsos documentários) ou “pseudodocumentários”. (NICHOLS, 2005, p. 50, 51).

A apropriação do gênero documentário pela ficção consagrou-se como uma alternativa plausível, em produções dos gêneros terror, ficção científica e suspense, para desvincular a ideia de ficção e tornar mais crível a produção audiovisual, desde a realização do filme Bruxa de Blair (Eduardo Sanches e Daniel Myrick, 1999).

Mas porque filmes de ficção construiriam suas histórias em torno de premissas subjacentes ao documentário?

A resposta é simples. Para proporcionar ao espectador a possibilidade de observar a vida do outro, quando esse outro, personagem, passou por situações distintas, mas em um mundo histórico tão supostamente real quanto ao que pertencemos. Essa aproximação permite que o receptor sinta-se mais chegado à história mostrada na tela, pois não se trata mais do que aconteceu em um espaço fictício, criado pelo filme, mas de uma história real, do mundo real, testemunhada por pessoas reais e suas câmeras.

Dentro desse universo hibrido que translada entre o real e a ficção o filme Cloverfild Monster (Matt Reeves, 2008) se apresenta como uma ficção científica e suspense, que traz premissas do gênero documentário para apresentar o registro audiovisual de um fato supostamente real. Fugindo de convenções tradicionais da ficção o filme estabelece uma relação de realidade que intensifica o suspense e o terror.

Cloverfield Monster trata genuinamente da "aproximação do medo e quebra de expectativas". Sua narrativa, com a inserção da câmera como personagem da história, pois ela já não é mais o corpo mecânico, na posição de recuo, que faz o registro óptico do fato, ela está presente na cidade que está sendo destruída por algo desconhecido, passando das mãos de um personagem para o outro; tudo é registrado em tempo real e as imagens tremidas fortalecem a sensação de veracidade. A medida que o filme se desenrola o espectador percebe que as perguntas não serão respondidas, o final não será feliz, e que ele saberá, sobre a “invasão”, tanto quanto os que faziam o registro da história, pois o filme começa quando a câmera, personagem, é ligada e termina quando ela se perde.

Passivamente aquele que assiste espera que uma produção ficicional se desenrole e atenda suas necessidades espectatoriais, apresentando os personagens, o drama, seu desenvolvimento e sua resolução. Mas, partindo do princípio estabelecido pelo diretor do filme em questão, esta não é uma ficção, é um registro audiovisual de algo real, por tanto um documento, então o resultado é a quebra de expectativas. Não se sabe se um ou vários monstros ou alienígenas atacaram a cidade, não se sabe se ele foi derrotado, não se sabe nada além do que o personagem, câmera, pôde registrar enquanto estava sendo operado por outro personagem. E é este estado híbrido de mutação e apropriação de gênero que permite que o filme Cloverfiel Monster seja uma ficção realizada como documentário, aproximando a história do mundo real, utilizando de efeitos estilísticos, até então, pouco usados no espaço ficcional, mas que demonstram ser uma nova e forte alternativa para causar os efeitos desejados pelo diretor.

Bibliografia

ARISTÓTELES. Poética. Tradução de Eudoro de Souza. Porto Alegre: Globo, 1966.

CARROLL, Noel. “Ficção, não ficção e o cinema da asserção pressuposta: Uma análise conceitual”. In RAMOS, Fernão Pessoa (org). Teoria contemporânea do cinema, vol II. São Paulo: Senac, 2005.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Tradução de Martis e Mônica Saddy. Campinas, SP: Papirus, 2005.

______________. Representing reality: Issues and concepts in documentary. Indianápolis: Indiana University Press, 1991.

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal... O que é mesmo documentário?. São Paulo: Senac São Paulo, 2008.

_______________. Teoria contemporânea do cinema: Documentário e narrativa ficcional, vol II. São Paulo. Senac, 2005.

RENOV, Michael. Theorizing documentary. Nova York: Routledge, 1993.

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Tradução de Fernando Mascarello. Campinas, SP: Papirus, 2003.