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  Título
Para quê tomar nota?
Autor
Rúbia Mércia de O.Medeiros
Resumo Expandido
Nota-se que no início de século XXI uma grande produção de filmes caseiros, filmes de família, filmes documentais, têm sido produzidos como a tentativa de rearmar variáveis narrativas em torno de uma intimidade supostamente perdida. Estes filmes, de alguma maneira, tangenciam o que podemos chamar de produção contemporânea ou, melhor, de produção do presente. A produção artística documental, por exemplo, tem sido marcada, há algumas décadas, pela presença de práticas de subjetivação e de relatos em primeira pessoa, o que evidencia o artista como sujeito, personagem e realizador da obra. As novas tecnologias de vídeo tornaram cada vez mais acessíveis as possibilidades de produzir imagens e de documentar os percursos, os deslocamentos e os momentos de intimidade de um sujeito que dá voltas em seu próprio fragmento. Um esforço para documentar a vida. Nossa proposta é identificar, entre as possibilidades de diferença e aproximação, o que pode ser pensado como carta fílmica, ensaio fílmico, diário fílmico, autobiografia e auto-retrato na produção audiovisual contemporânea, tendo alguns autores como ponto de partida: Michel Reanov (diário), Raymond Bellour (carta/autoretrato), Antonio Weinrichter (ensaio fílmico), Philippe Dubois (autobiografia). A partir de exemplos históricos de carta e de diário fílmico na história do cinema (Carta da Sibéria e Sans Soleil de Chris Marker e Lost Lost Lost de Jonas Mekas), analisaremos filmes/vídeos contemporâneos que são atravessados por questões similares. Investigaremos relações estabelecidas com a câmera e com o espectador a partir do gesto fílmico de registrar a própria intimidade. De que maneira a escrita de si torna-se uma operação para a arte? Chris Marker sugere uma escrita de filme-carta em 1957, com Carta da Sibéria, uma obra em que o narrador se manifesta em primeira pessoa e fala diretamente com o espectador. O narrador faz comentários acerca do movimento de industrialização e progresso da Sibéria e essas interlocuções são lidas através de um texto em forma de carta, o que nos dá a perceber que não há especificamente uma troca de cartas, mas sim a leitura de um texto que remete a uma carta, como lembrança. Neste mesmo filme, Marker questiona a imagem, nos coloca questões a respeito dela, repete uma sequência, imprimindo ao filme uma dimensão ensaística. É justamente nesta fricção entre ensaio e carta que nos interessa pensar as derivas fílmicas do documentário subjetivo. Tomar a própria vida, detalhes dela, como assunto de uma narração é o motivo de ser da autobiografia expandida. Assim como a autobiografia, o diário íntimo constitui-se também numa transposição de momentos sequenciais que se trabalham por dentro de uma estrutura fílmica quase linear. É no espaço da intimidade, propiciado pela escritura do diário íntimo, que ele se autoriza e se coloca apto ao relato, ao questionamento de si. A partir dos exemplos fílmicos citados, este trabalho procura ler criticamente dois vídeos contemporâneos que dialogam com as dimensões do filme autobiográfico, do filme-carta, do auto-retrato e do ensaio-fílmico. São eles: “Querida Mãe”, de Patrícia Cornill, no qual a diretora dirige, atua e acompanha a leitura das cartas que sua mãe escrevia para sua avó; e “Meu Corpo”, da cineasta norueguesa Margreth Olin. Em “Querida Mãe”, o texto das cartas transforma-se em uma poderosa e delicada narração. O registro não é o da reconstituição, mas sim o de uma ausência instalada que, por força da cineasta, transforma-se num bonito vulto alusivo e focado no “o que teria sido”. Talvez, uma mistura de autobiografia, filme-carta e diário. Em “Meu corpo”, trata-se de pensar a questão do corpo dentro do espaço do filme autobiográfico e auto-retrato, que estampam o processo de subjetividade em sua narrativa.
Bibliografia

ADORNO, Theodor W. “O ensaio como forma”. IN: Notas de literatura I. São Paulo: Ed. 34, 2003. BELLOUR, Raymound. Entre-Imagens. Campinas.SP. Papirus.1997. BLANCHOT, Maurice. “O diário íntimo e a narrativa”. IN: O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005. DUBOIS, P. A foto-autobiografia - a fotografia como imagem-memória no cinema documental moderno, in Imagens. Campinas: Editora da Unicamp, abril 1995. MOLFETTA, A., O diário de viagem: o relato do indivíduo no documentário sul-americano. Texto apresentado no 6º Encontro Anual da Socine. REANOV, M. The subject of documentary. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2004. Weinricheter, Antonio. Metraje Encontrado. La apropiación en el cine documental y experimental. Colección Punto de Vista, Gobierno de Navarra, Pamplona, 2009. ISBN: 978-84-235-31172.