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  Título
Dos sentidos ao sentir: a narrativa sensorial de Cao Guimarães
Autor
osmar gonçalves dos reis filho
Resumo Expandido
Este trabalho é o primeiro resultado de uma pesquisa atualmente em andamento no Instituto de Cultura e Arte da UFC. Intitulada Dos sentidos ao sentir: a narrativa sensorial na produção audiovisual contemporânea, a pesquisa se volta para uma série de trabalhos (filmes, vídeos e instalações) que, embora distintos em suas temáticas, compartilham procedimentos, técnicas e abordagens similares. São obras que apresentam uma grande economia e delicadeza nos modos de filmar, que dispensam uma atenção especial ao micro e ao banal (aos pequenos eventos que emergem nas cenas) e que tendem, acima de tudo, a valorizar a imagem nela mesma, a imagem enquanto signo (puro) em sua potência, independentemente de uma história ou de uma estrutura narrativa que a motive. Um desses trabalhos é o do diretor mineiro Cao Guimarães.

Operando na contramão da produção contemporânea, os filmes de Cao privilegiam não o desenrolar de um acontecimento ou o desenvolvimento de um raciocínio, mas a pura descrição de paisagens e eventos, a imagem e o tempo em si mesmos. De fato, seus trabalhos nos apresentam imagens autônomas, imagens que não se subordinam umas às outras, que não se prolongam formando linhas ou cadeias de sentido. O resultado é que da obra de Cao, dificilmente, depreendemos intrigas, conflitos ou encadeamentos dramáticos. Seus filmes costumam apontar antes para algo mais frágil e tênue: como a passagem do vento, um certo tom de azul, uma lágrima, o silêncio. São devires, mais que histórias. Um conjunto de imagens que aparece como descrições puras, como potências sensoriais e afetivas, fora de um finalismo ou de um esquema sensório-motor. Trata-se enfim de um cinema de vidência, uma prática cinematográfica que acredita na constituição de um novo olhar sobre o mundo – um olhar mais livre, poético, sensorial.

O intuito deste artigo é estabelecer um diálogo com a obra do diretor mineiro para que possamos pensar, a partir dele, mas também para além dele, a emergência de um tipo de produção contemporânea que se sustenta na autonomia da imagem, que aposta em sua força plástica e fragmentária mais do que na narração ou em qualquer outra articulação de linguagem. Esses filmes recusam a idéia do cinema como representação e afirmam uma compreensão do audiovisual que vai além do “contar histórias”. De fato, se há narrativa nesses trabalhos, trata-se de narrativas mínimas ou insipientes, de formas expressivas ligadas a uma lógica do sensível. Nossa hipótese é de que Cao põe em jogo narrativas sensoriais, filmes que funcionam através de blocos de sensações, de um sistema de impressões ínfimas e imperceptíveis, daquilo que Leibniz chamou de pequenas percepções (apud. GIL, 2005).

Em The cinematic body, Steve Shaviro descreve uma certa produção audiovisual que se instala mesmo numa zona limítrofe e instável, em algum lugar entre o narrativo e o não-narrativo. Esses trabalhos parecem se apoiar em uma lógica da sensação (SHAVIRO, 1993). Segundo Shaviro, são filmes que não inventam ou representam um estado de coisas, mas que criam uma fascinação visual sem ter referências histórico-sociais imediatas. São obras que nos afetam, em primeiro lugar, como imagem e como sensação. De fato, eles investem na materialidade das imagens, apostam em sua potência afetiva e afirmam ainda uma temporalidade que se desloca das ações dos personagens em direção à duração, a um tempo múltiplo e aberto, fora dos eixos.

Aqui, portanto, as idéias de representação e reconhecimento são subvertidas, deslocadas. Esses trabalhos nos apresentam um mundo em criação e movimento, um mundo em devir - ainda vislumbrado, ainda por vir. Nas narrativas sensoriais, o que vislumbramos são novas modalidades de apreensão e de percepção do mundo, são formas mais abertas às ambigüidades e transformações do real, modos onde podemos perceber não apenas o valor da representação e do simbólico, mas também das forças (instáveis, em devir), das pequenas impressões, das atmosferas indizíveis e inefáveis.
Bibliografia

BLANCHOT, Maurice. A parte do fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento, cinema 1. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo, Cinema 2. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006.

GIL, José. As pequenas percepções. In.: LINS, Daniel e FEITOSA, Charles. Razão Nômade. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

PEIRCE, Charles S. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2001.

RANCIERE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Trad. Mônica Costa Netto. São Paulo: EXO Experimental e Ed. 34, 2005.

SHAVIRO, Steven. The cinematic body. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1993.

MACIEL, Kátia (org.). Cinema sim: narrativas e projeções: ensaios e reflexões. São Paulo: Ed. Itaú Cultural, 2008.

_____________. Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009.

MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. Trad. Paulo Neves e Maria Gomes Pereira. São Paulo: CosacNaify, 2004.