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  Título
O cruzamento entre as artes na construção do cinema de Beto Brant
Autor
Aurélio Orth de Aragão
Resumo Expandido
A partir de O invasor a crítica cinematográfica passa a empreender um grande esforço para sistematizar a obra de Beto Brant e Marçal Aquino. Há um empenho consciente para identificar e capturar as características mais determinantes e repetidas ao longo dos filmes da dupla. Uma estratégia recorrente é a de demarcar a concepção estética de Brant e Aquino articulada à exploração de diferentes situações de iminentes irupções violentas localizadas em circunstâncias fronteiriças.

De fato, em seus três primeiros filmes, Brant havia se ocupado de narrativas de conflitos em zonas de fronteira: o universo dos matadores na fronteira Brasil-Paraguai em Os matadores; a contigüidade entre passado recente e presente sempre assombrado pelas mazelas da ditadura militar em Ação entre amigos; e a latente violência entre centro e periferia em O invasor. Com Crime Delicado, o diretor faz entrar em cena as angústias do intelectual em um mundo que não mais endossa as suas certezas. Brant volta-se para uma narrativa centrada nos tormentos e inquietações de um crítico de arte que se vê forçado a lidar com a dissolução das fronteiras entre as artes, e, em última instância, entre a arte e a vida.

O próprio processo de realização do filme é um reflexo das questões que ele aborda. O conjunto de pessoas a quem o próprio Brant atribui participação criativa no filme ajuda a explicitar o caráter híbrido e multifacetado da empreitada. Além do produtor Renato Ciasca e de Aquino, parceiros recorrentes de Brant, estiveram envolvidos o ator Marco Ricca, a atriz Lílian Taulib, o teatrólogo Maurício Parone, o artista plástico Felipe Ehrenberg e o diretor de fotografia Walter Carvalho.

A diversidade das experiências em múltiplas esferas da arte foi elemento constitutivo fundamental do filme. A abertura criativa evidenciada nas escolhas das parcerias passou a ser a premissa para a realização de uma obra que pretendeu trazer à tona as ameaças aos parâmetros estéticos e intelectuais de um pensador ainda sob o austero regime da racionalidade. Antonio Martins (Marco Ricca) sustenta seus critérios de relação com a arte e com o mundo dentro das regras da objetividade até o momento em que se depara com as incertezas do afeto. Ao conhecer Inês Campana (Lilian Taulib), Martins percebe que seus recursos intelectuais não bastam para dar conta dos desafios que o encontro com a modelo lhe lança. O crítico é incapaz de recolher de seu aparato teórico e intelectual instrumentos para interpretar a cena em que Inês está inserida. A relação da modelo com o pintor Torres Campana se baseia no esgarçamento dos limites entre vida e representação, entre o artista e seu objeto e representa a diluição das certezas e dos critérios de julgamento do crítico Martins.

Os procedimentos estéticos do filme são absolutamente condizentes com esse processo de crescente instabilidade e incerteza. O deslizamento entre linguagens e estratégias narrativas é incorporado organicamente à sua fatura. Artes plásticas, literatura e teatro pautam o tratamento da linguagem cinematográfica.

Essa perspectiva de linguagens híbridas também abre brecha para uma combinação entre documentário e ficção. Pouco antes do final do filme as duas linguagens surgem tão imbricadas que é impossível estabelecer uma dissociação entre elas. O depoimento de José Torres Campana/Felipe Ehrenberg. não nos permite saber se estamos diante do personagem ou do artista plástico mexicano. Quem quer que seja, nos traz um depoimento sobre transformações e rompimentos de limites. Campana/Ehrenberg mais uma vez retoma o tema do filme. Discute a arte a partir das tênues separações e frequentes deslizamentos entre autor e objeto, entre arte e vida, entre amor e morte. A reposta à repetida questão “Pra que servem as artes?” é dada dentro da chave das passagens e mutações. Para Ehrenberg/Campana, o artista existe para compartilhar a percepção das transformações que, corrigindo uma imprecisão vocabular, não devem ser sofridas, mas sim agradecidas.
Bibliografia

AQUINO, Marçal. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.



______________. O invasor. São Paulo: Geração Editorial, 2002.



FIGUEIREDO. Vera Lúcia Follain de. Narrativas migrantes: literatura, roteiro e cinema. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: 7Letras, 2010.



PELLEGRINI, Tânia et al. Literatura, cinema e televisão. São Paulo: Editora Senac São Paulo: Instituo Itaú Cultural, 2003.



SANT’ANNA, Sérgio. Um crime delicado. São Paulo: Companhia da Letras, 2005.



STAM, Robert. A literatura através do cinema. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.