/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
A justiça brasileira sob o olhar documentário
Autor
Maria Celina Ibazeta
Resumo Expandido


A violência urbana é sem dúvida uns dos grandes temas do documentário brasileiro contemporâneo. Depois do paradigmático filme de Octávio Bezerra Uma avenida chamada Brasil (1989), muitos outros documentários exploraram as relações entre o narcotráfico, a corrupção policial e a pobreza e deram visibilidade a seus personagens principais: o criminoso, a polícia e o favelado. Notícias de uma guerra particular, Ônibus 174, Falcões: meninos do tráfico e O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas são alguns exemplos que mostram as falhas do sistema social que levam cada vez mais adolescentes e jovens de classe baixa, alguns ainda meninos, a adotar a ilegalidade e o crime como seu modo subsistência. Este artigo salienta o trabalho de duas documentaristas: Justiça (2004) de Maria Augusta Ramos e Entre a luz e a sombra (2009) de Luciana Burlamaqui que refletem sobre o funcionamento do sistema judiciário e carcerário brasilerio respectivamente, levando a discussão da violência ao espaço institucional.



Justiça se constrói de acordo com as convenções do estilo observativo, siguindo o modelo de Frederick Wiseman de filmar o cotidiano das instituções públicas que o cidadão comum desconhece. Sem voz over, entrevistas ou depoimentos, o olhar distante da uma câmera sempre fixa explora a realidade como uma testemunha dos acontecimentos que tem lugar em um Tribunal de Justiça da cidade de Rio de Janeiro. Assistimos aos interrogatorios de três jovens acusados, mas o documentário dá destaque a história de um deles. A câmera segue o processo de Carlos Eduardo do princípo ao fim e o acompanha na sua estada na cela, nos encontros com a sua família no presídio e com sua advogada de defesa. A narrativa escolhe como fio condutor as diferentes etapas do própio processo jurídico e explora a vida privada e familiar de seus personagens principais: o juiz, a advogada de defesa e o acusado. As histórias de vida individuais fazem pensar o espectador e avaliar a atuação dos órgãos oficiais e os modos de punição.



Entre a luz e a sombra é um documentário participativo filmado ao longo de sete anos (2000-2007), que escolheu três personagens singulares cujas vidas estão vinculadas à Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecido como Carandiru. O trabalho social junto aos presidiários feito pela atriz Sofia Bisilliat, as saídas para shows do grupo 509-F, integrado pelos detentos Dexter e Afro X e a atividade do juiz Octávio de Barros Filho são os três eixos sobre os quais se constrói esta obra. A questão sobre se a prisão pode reintegrar socialmente os criminosos perpassa o documentário, mesmo quando o foco está centrado na vida emocional das personagens. Ao contrário de Ramos que retratou uma cena ordinária: o processo de julgamento de réus, Burlamaqui optou pela exceção à regra. A posibilidade de sair da prisão para fazer shows do grupo 509-F foi uma decisão ousada e inédita do juiz Barros Filho, que viria a custar-lhe o cargo.



O objetivo deste artígo é comparar as tomadas presentes em ambos documentários na construção de seus argumentos. A tomada da imagem documentária se define pela presença de um sujeito sustentando uma câmera no embate com o mundo, em que formas e volume deixam seu traço em um suporte de câmera/gravador. As tomadas são diferentes dependendo do conjunto de convenções estilísticas que adote o documentário (PESSOA RAMOS, 2009, p. 82-85). Dado que toda escolha do diretor, desde a posição da câmera e as locações até os personagens e suas falas, dão conta de sua perspectiva, decidimos analisar e comparar o olhar de duas diretoras que assumen posturas totalmente opostas em relação ao universo narrado: a ausência e a participação da trama. As perguntas que orientam esta pesquisa e que ela pretende responder são: o que diz a imagem-câmera sobre a relação do sujeito-da-câmera com a realidade que filma? O que diz a tomada da imagem documentária sobre o seu argumento? Esta tomada seduz, provoca ou irrita seu público?







Bibliografia

BALTAR, M. . Weeping Reality: Melodramatic Imagination in Contemporary Brazilian Documentary. In: Darlene J. Sandlier. (Org.). Latin American Melodrama. Passion, Pathos, and Entertainment. 1 ed. : University of Illinois Press, 2009, v. , p. 130-138.



DA-RIN, Silvio. Espelho partido. Tradição e transformação do documentário. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2004.



NICHOLS, Bill. Ideology and the image. Social representation in the cinema and other media. Bloomington: Indiana University Press, 1981.



_____________, La representación de la realidad. Cuestiones y conceptos sobre el documental. Barcelona: Editorial Paidós, 1991.



_____________, Introdução ao documentário.Campinas, SP: Papirus, 2005.



ORTEGA, María Luisa y GARCÍA, Noemí (Ed.). Cine directo. Reflexiones en torno a un concepto. Madrid: T&B Editores, 2008



PESSOA RAMOS, Fernão. Mas afinal...o que é mesmo documentário? São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2008.