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  Título
Cinema e educação - confluências entre cultura audiovisual e infância
Autor
Clarissa Nanchery
Resumo Expandido
Este trabalho visa perceber o universo cinematográfico enquanto elemento de força social, cultural e cognitiva, capaz de sugerir alterações na percepção do mundo, na aprendizagem e nas trocas simbólicas. Munidos desta certeza, objetivamos analisar e incrementar o campo teórico de cinema e educação em busca do desenvolvimento e aprimoramento de propostas que incentivem discussão e prática de atividades audiovisuais voltadas para a infância. Para isso, abordaremos o projeto “Lanterna Mágica” – uma iniciativa pessoal que desenvolve a linguagem cinematográfica para crianças de até seis anos de idade, no município de Niterói–RJ como uma ação possível de reflexão.

Nossa abordagem procura compreender o cinema não apenas na sua dimensão instrumental para a educação, mas considerando-o como o próprio objeto da intervenção educativa. Acreditamos que as peculiaridades que o envolvem o cinema enquanto expressão artística apontam para a alteridade (BERGALA, 2008), para a desconstrução de códigos pré-concebidos, para a fruição, para ampliar o repertório cultural e para, finalmente, fomentar a capacidade inventiva das crianças.

Procuramos perceber que no cinema sempre habita uma nova experiência a ser descoberta e que frequentemente poderemos nos deparar com criações ainda mais questionadoras e surpreendentes. Há sempre a possibilidade, nas palavras de Ismail Xavier, de “um pensar e fazer cinema que reivindica o direito a experimentar negado pela indústria, que convoca a uma ampliação da aventura da nova percepção, sem as amarras do código vigente”. (2003: 12).

Interessa-nos descobrir os elementos de aproximação do espectador com o cinema, em especial o espectador infantil. Procuramos evidenciar que a cultura audiovisual, sendo a mais próxima da maioria da população e das crianças, deve ser explorada de forma diversificada e é preciso nos aproveitar desta relação já estabelecida. Não existe um processo de formação necessário para ensinar as pessoas a assistirem filmes, programas de TV, desenhos animados. O universo audiovisual já está mais do que incorporado em nosso cotidiano, então é preciso ampliar a diversidade e o entendimento que as pessoas têm sobre este meio para que possamos perceber o seu potencial educativo.

Buscamos analisar e incrementar as propostas de incentivo a produção de atividades audiovisuais voltadas à educação infantil, pois entendemos que a produção implica a participação crítica e criadora de crianças. Nos apropriamos das reflexões tecidas por Alain Bergala resumindo nossa hipótese de forma bem simplificada: o contato com o fazer cinematográfico faz a criança “tornar-se um espectador que vivencia as emoções da própria criação” (2008: 35). Acreditamos que, ao aproximar-se dos dispositivos de criação, o indivíduo torna-se muito mais do que um espectador crítico, há um encorajamento para dissecar um universo de possibilidades infindáveis, este universo que pode lhe ser distante ou apresentado de forma superficial abre-se a descobertas mais aprofundadas.

Sabemos também que os professores e as escolas necessitam de novos rumos, a educação formal cartesiana não suporta mais as demandas que surgem em meio às tecnologias, à cultura midiatizada, regida pelo espetáculo, é preciso, de fato, repensar de que forma a escola pode se apropriar destes novos saberes.

A experiência na realização do Projeto Lanterna Mágica nos leva a perceber que é possível introduzir novos sentidos ao social e novos usos sociais dos meios (BARBERO, 2003) e nos arriscamos em dizer que ações como essas nos levam a pensar que é possível resistir a significados dominantes criando sua própria leitura e seu próprio modo de apropriar-se da cultura. Mesmo com todas as limitações, já é notório que crianças muito pequenas fazem um novo recorte do mundo, estão mais atentas às possibilidades, aguçadas e interessadas na sua percepção. A inventividade ganha espaço nas produções que realizam e a mágica do cinema ganha espaço na escola.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. A imagem. Campinas: Papirus, 2006.

BERGALA, Alain. A Hipótese-Cinema: pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: Booklink e CINEAD/UFRJ, 2008.

CHERNEY, Leo e SCHWARTZ, Vanessa R. (org.) O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

DUARTE, Rosália. Cinema e Educação. 2ª ed. Campinas: Autores Associados, 2002.

FRESQUET, Adriana. Arte e Crianças: um encontro impostergável. In: VASCONCELOS, Tânia de. (org.) Reflexões sobre infância e cultura. Niterói: EdUFF, 2008.

MARTIN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. 2ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2003.

SARMENTO, Manuel Jacinto. “Imaginário e culturas da infância.” Artigo disponível.

XAVIER, Ismail (org.). A Experiência do cinema. 2º ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Edições Graall: Embrafilme, 1991.

VYGOTSKY, L. S. A imaginação e a arte na infância – ensaio psicológico, Ed. Akal, 1982.