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  Título
Da imagem como jogo: performance audiovisual entre a ciência e a arte
Autor
Patricia Moran Fernandes
Resumo Expandido
Somos testemunhas e agentes de mudanças radicais no âmbito das relações humanas e do trabalho cotidiano resultado da emergência de uma tecnologia cada vez mais acessível e pervasiva. Sabemos que a tecnologia conecta-se a processos criativos, povoa o imaginário e em algumas exposições de arte sua evidência revela o apagamento do agente criador e quiçá da arte. Se vivemos em eras, podemos pensar a nossa como a era da hipertrofia da mediação. A história dos artefatos técnicos é pródiga em cientistas cujo engenho e curiosidade os colocaram ao longo dos anos no panteão das artes. Etienne-Jules Marey é caso exemplar de fisiologista conhecido por suas contribuições para a medicina, aviação e cinema por suas cronofografias. Ao produzir oníricas imagens para estudar o movimento desenvolveu aparelhos de exibição e técnicas de captação de imagem.

Tomaremos as experiências de Jules-Marey, John Whitney e Enrique Roscoe conhecido como VJ 1mpar para traçar relações entre arte e tecnologia. Cada um destes criadores foi contemporâneo de seu tempo traçando estratégias de trabalho em que o imbricamento entre arte e tecnologia fala de determinado estado da arte.

Marey inventou a dança de formas e cores com matérias como fumaça e animais. Whitney problematizou com imagens e com o verbo editado no livro “Digital Harmony” a narrativa de formas abstratas. Ficou conhecido por construir coisas que serviam aos seus objetivos artísticos, a saber, a pesquisa sobre a complementariedade entre a música e as artes visuais. Vj 1mpar cria para suas performances objetos como êmbolos de vidros coloridos ligados a interfaces digitais para intervir nos parâmetros da imagem de suas apresentações. Como Whitney, desenvolve objetos para suas performances.

Marey tem na curiosidade e invenção a produção de belas formas, Whitney usa belas formas para retornar à narrativa não dirigida, mas sugerida e 1mpar é um jogador conforme nos ensinou Flusser ao se referir ao artista da era da mediação técnica. Eles não se inscrevem na representação especular, suas imagens geram experiências inefáveis.

1mpar, em quem mais nos deteremos substituiu o work em progress, pela pesquisa em progress como pode ser vista em 1mpar.marginalialab.com. Seus trabalhos recentes são produzidos a partir do êmbolo já citado, de caixa de bala menthos com o therementos que guarda placas de Arduíno e recentemente ele procura abandonar o computador com o K-Synth. Trata-se de uma caixa de vídeo cassete desenvolvida para processar imagens sem a necessidade de um computador. Estamos diante de um criador de gadgets, produtor de belos objetos e de “coisas” que deixam ver o processo de produção de sofisticadas imagens, quase todas saídas de seus brinquedos. 1mpar aposta na criação a partir do jogo com objetos re-inventados, um novo readymade.

Bibliografia

Didi-Huberman, Georges. 2004. Mouvements de l’air. Étienne-Jules Marey, photographe des fluides. France: Éditions Gallimard/Réunion des musées nationaux.

Flusser, Vilém. 2006. La Civilisation des médias. France: Circé.

Gumbrecht, Hans Ulrich. 2004. Production of presence. What meaning cannot convey. Califórnia: Standford University Press.

Leighton, Tanya (Ed). 2008. Art and the moving image. A critical reader. London: Tate publishing in Association with Afterall.

Machado, Arlindo. 1997. Pré-cinemas & pós-cinemas. SP: Papirus.

_______________. 1993. Máquina e imaginário: o desafio das poéticas tecnológicas. São Paulo: Edusp.

Maciel, Kátia (org.) 2009. Transcinemas. RJ: Contracapa.

Simondon, Gilbert. 1989. Du mode d'existence des objects techniques. Paris: Aubier cop.

Sodré, Muniz. 2006. As estratégias sensíveis. Afeto, mídia e política. Petrópolis, RJ: Vozes.

Valéry, Paul. 2007. Variedades. SP: Iluminuras.

Whitney, John. 1980. Digital Harmony. Tenesse: kingsport Press.