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  Título
Miguel Rio Branco: entre imagens, entre olhos e paisagens
Autor
Luciana Guimarães Dantas
Resumo Expandido
O trabalho artístico desenvolvido por Miguel Rio Branco desde a década de 1970 é marcado por uma intensa experimentação que envolve diferentes meios. Embora seja mais conhecido por suas fotografias, Miguel Rio Branco é também pintor, além de ter realizado filmes experimentais e atuado como diretor de fotografia de cinema. Nas suas instalações, que constituem objeto de nossa reflexão, esses diversos interesses convergem na produção de configurações variáveis compostas por imagens impressas e projetadas, sons, elementos escultóricos e luzes, dando concretude a uma poética que explora a vida em seus extremos: dor, morte, erotismo, abandono, beleza.



O modo como diversos meios se misturam no trabalho de Miguel Rio Branco leva Philippe Dubois (2009) a situá-lo num campo da arte contemporânea que explora as contaminações entre variadas tecnologias e práticas artísticas, no qual diferentes tipos de imagens, sob efeito umas das outras, tendem a reinventar-se (Bellour, 1997). É seguindo esta via que procuramos discutir o trabalho de Miguel Rio Branco, sondando as conexões da fotografia com os campos do cinema e da instalação.



Em “Entre os olhos, o deserto”, atualmente montado no Inhotim (MG), uma ampla parede, onde se encontram encostados pedaços de ferro e outros objetos, é ocupada por três imagens projetadas que vão se alterando e compondo diferentes trípticos. As imagens mostram paisagens do deserto, olhos, objetos deteriorados, cenas de TV e outros assuntos. O tipo de conexão que se estabelece entre essas imagens nos remete a certas questões próprias ao cinema moderno, como a noção de montagem por fissuras, que conecta as imagens através de cortes irracionais, criando entre elas relações indiretas porém nunca arbitrárias (Deleuze, 1990).



Entretanto mostraremos como o trabalho de Rio Branco opera também de outras formas que vão marcar diferenças em relação à experiência do cinema. Em primeiro lugar, não se trata de imagens-movimento, mas de imagens fixas que se sucedem numa temporalidade que não é nem a da fotografia nem a do cinema e que vinculam o trabalho a uma tradição experimental que passa, por exemplo, pela proposta de “Quasi cinema” de Hélio Oiticica e Neville de Almeida.



Paralelamente a essa discussão sobre o modo como as imagens se sucedem, o trabalho exige que consideremos as relações entre as imagens que aparecem simultaneamente e também as relações entre as imagens e os objetos, que são inundados pela projeção ao mesmo tempo que projetam-se sobre as imagens. Por se tratar de uma instalação, o trabalho comporta ainda uma variação em função do posicionamento do observador, da sua circulação no espaço e do tempo que este dá à experiência, questões que a arte vem se colocando desde o minimalismo e que buscamos explorar através da noção de dispositivo (Duguet, 2009).



Os diferentes níveis de relações entre as imagens proporcionados pela instalação “Entre os olhos o deserto” podem ser vistos como estratos temporais que ora se sobrepõem, ora se atritam, possibilitando a emergência de múltiplos sentidos, às vezes contraditórios ou até mesmo paradoxais (Fatorelli, 2003). Procuramos pontuar como os desdobramentos desses estratos temporais no trabalho de Miguel Rio Branco constrói uma poética singular, que tem como um de seus eixos a problematização das noções de paisagem e retrato. As sucessivas e simultâneas articulações entre imagens (de rostos, do deserto, de objetos, da tv, etc.), bem como as relações que as imagens estabelecem com o espaço da instalação, confundem e deslocam nossas habituais noções de retrato e paisagem, colocando questões tais como: pode um rosto ser paisagem? Pode uma paisagem ser rosto e nos olhar? A partir da idéia de um curto-circuito entre as imagens de paisagem e de rosto, desenvolvida por autores como Deleuze (1990) e Peixoto (2007), procuramos expor algumas das vias pelas quais o trabalho de Miguel Rio Branco nos faz repensar as categorias paisagem/retrato, ver/visto, sujeito/objeto.

Bibliografia

BELLOUR, R. Entre-imagens. Campinas: Papirus, 1997.



DELEUZE, G. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990



DUARTE, P. S. Pele do Tempo. Catálogo de exposição, Centro Cultural Hélio Oiticica, Rio de Janeiro, 2000.



DUBOIS, P. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004.



DUBOIS, P. Sobre o efeito cinema nas instalações contemporâneas de fotografia e vídeo. In: MACIEL, K. Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra capa, 2009.



DUGUET, A. Dispositivos. In: MACIEL, K. Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra capa, 2009.



FATORELLI, A. Fotografia e viagem – entre a natureza e o artifício. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.

_______________. Entre o analógico e o digital. In: Fatorelli, A. e Bruno, F. Limiares da imagem. Rio de Janeiro: Maud X, 2006.

PEIXOTO, N. B..Ver o invisível – a ética das imagens. In: NOVAIS, A. Ética. São Paulo: Companhia das letras, 2007.



RIO BRANCO, M. Entre os olhos, o deserto. São Paulo Cosac & Naif, 20