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  Título
Três percursos imagéticos de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes
Autor
Liana Lessa
Resumo Expandido
A partir do panorama de incorporação da imagem em movimento no cenário da arte contemporânea brasileira, propõe-se estabelecer elos entre o cinematográfico e o plástico a partir das produções audiovisuais selecionadas do cineasta Karin Aïnouz em parceria com o cineasta Marcelo Gomes, bem como verificar se podem ser tomadas como peças de densidade no campo de experimentação artística e cinematográfica. Vai-se pontuar o cinema experimental e o cinema de artista, num contexto comunicacional dialógico transdisciplinar, sob a perspectiva do cinema expandido, utilizando-se ainda o conceito de estética das ruínas. Enquanto uma linha tênue delimita as especificidades entre o cinema experimental e o cinema de artista, admite-se mais importante confrontar e integrar estas diversas experiências interdisciplinarmente, buscando as passagens entre-imagens em busca do visível e do imerso nelas. Num trabalho de exploração das características perceptivas da imagem e propondo novos critérios de ordenamento ao tempo narrativo, a dupla apresenta o que Gene Youngblood classificou como Cinema Expandido na instalação “Ah, se tudo fosse sempre assim”, para a mostra “Carnaval”. O filme-instalação consiste em uma sala escura de chão coberto de purpurina com duas telas opostas exibindo cenas capturadas em vídeo e película durante seis dias de carnaval em Olinda, PE e uma sonata de Beethoven de trilha sonora. A sensorialidade, que parte do chão macio até a interação entre a imagem dos corpos que se beijam incessantemente em uma tela ou pelo velho bêbado descamisado que caminha ao infinito noutra e o espectador, causa uma reflexão sobre a conduta estética do próprio espectador, evocando uma sensação de presença absoluta, que é a experiência do carnaval, e a ausência absoluta que é a memória desta experiência. “Sertão de acrílico azul piscina” (2004), é um documentário-devaneio sobre o sertão nordestino. Este é o primeiro resultado a partir de imagens realizadas para pesquisa de locação durante uma viagem do diretor cruzando o sertão nordestino, realizadas em câmera digital, 16 mm e fotografias, que mostram lugares remotos, tradições e costumes da paisagem brasileira. Quando em “Sertão de acrílico azul piscina” a estrutura do filme documentário industrial é suspenso numa tentativa de abertura da linguagem cinematográfica e dissolução da ordem da representação, o espectador é perceptivamente convidado a analisar as imagens e situações antes de reconhecer os elementos de coesão e desenvolvimento do filme, criando uma linha narrativa poética e abstrata, num filme que privilegia a experiência do processo em detrimento da contemplação das imagens. Assim, as imagens que já se juntaram uma vez para compor o documentário, separam-se e em seguida unem-se novamente em “Viajo porque preciso, volto porque te amo”(2009), alteradas por especificidades de tempo e espaço, compõem o quadro que Catherine Russell denomina de Estética das Ruínas quando esta se refere ao trabalho com found footage – compilação, colagem e apropriação. Também a montagem complexa, com múltiplas camadas de sentido, com ressemantização do material de origem, são típicas de trabalhos com material de arquivo. “Viajo porque preciso, volto porque te amo” segue então como uma ficção a partir deste material em que o roteiro unifica as cenas usando a voz em off do personagem que não aparece em nenhum instante do filme. As experimentações de linguagem presentes nesta obra emprega ousadamente a matéria fílmica não como suporte da imagem, mas como imagem de si mesma enquanto o personagem-voz constrói ao mesmo tempo que rompe a impressão de realidade pelo caos imaginativo, propondo uma escritura fílmica diferenciada.
Bibliografia

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