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  Título
A estética gótica e o cinema de vanguarda
Autor
Alex Sandro Martoni
Resumo Expandido
O presente trabalho tem como objetivo discutir sobre a representação da estética gótica no cinema, salientando o modo como essa forma de expressão plástica e literária ecoa nas experiências vanguardistas ocorridas ao longo da história do cinema.

Surgida ao longo da segunda metade do século XVIII como um dos modos de expressão da arte romântica, a estética gótica se singularizou pela construção de narrativas fantásticas, cuja ênfase recai na exposição de aspectos inquietantes ao leitor, tais como a descrição de um espaço atópico e a interpenetração de eventos macabros, que suscitam a hesitação do mesmo quanto às suas relações lógicas. Do ponto de vista plástico, o gótico germinou dentro do movimento alemão sturm und drang, estimulando o desenvolvimento de uma relação mística entre homem e natureza, que, em termos pictóricos, resultava na representação de um ambiente natural em grande escala, repleto de um forte contraste entre luz, sombras e cores.

Ao longo da história do cinema, o desejo de explorar as potencialidades da linguagem cinematográfica – que era estimulado pelo desenvolvimento da arte moderna e dos aparatos técnicos – levou realizadores a buscar, na estética gótica, formas de experimentar modelos de construção cenográfica, de manipulação da fotografia e de estabelecimento do ponto de vista. Essa tendência, de caráter fortemente vanguardista, atravessa um arco histórico que tem início na avant-garde francesa, passa pelo expressionismo alemão e ecoa até os dias atuais nos trabalhos experimentais do realizador checo Jan Švankmajer.

Longe de buscar uma adequação aos princípios normativos da estética gótica, o que realizadores como Jean Epstein e Jan Švankmajer obtiveram com suas respectivas incursões nesse campo artístico – através da adaptação que ambos fizeram de A queda da casa de Usher, de Edgar Allan Poe – foi uma experiência de vanguarda, na medida em que exploraram todo o potencial plástico e técnico do cinema na construção cenográfica, na sobreposição de imagens, na fotografia contrastante, na iluminação, no uso do som, nos movimentos de câmera e na montagem, claramente poética.

O estudo dessas duas obras nos permite aprofundar as discussões pertinentes aos modos de realização da tradução intersemiótica, na medida em que ambos os realizadores buscam soluções inovadoras, no âmbito cinematográfico, para produzir equivalentes narrativos e plásticos ao texto-fonte.

Bibliografia

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