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  Título
Três construções de narrativas de personagens documentais
Autor
Leandro Rocha Saraiva
Resumo Expandido
As três obras escolhidas têm em comum a construção de estratégias ficcionalizantes nas quais personagens documentais são centrais. Meu interesse é compreender como, em cada caso, as pessoas documentadas tornam-se personagens. Como o “jogo de cena” – para aludir ao filme de Coutinho no qual esse limiar é mais evidentemente exposto – se faz por quem está na frente e atrás da câmera, e na orquestração narrativa, tanto no planejamento e produção da situação de filmagem quanto na montagem.

Nos três casos, as pessoas documentadas são “homens ordinários”, o “homem comum”, no sentido que a critica contemporânea utiliza a expressão (Guimarães, 2010; Migliorin, 2010). No mesmo movimento da análise fílmica das obras, pretendo ensaiar uma reflexão critica (no sentido de identificação dos pressupostos) sobre teoria estética e os princípios de julgamento estético que embasam essa linha com a qual dialogo.

A motivação desta proposta de comunicação surgiu, sobretudo, das críticas a Jesus no mundo maravilha, especialmente a de César Guimarães e Cristiane Lima (“A critica da montagem cínica”, Doc Online, no.7), mas também as de Cezar Migliorin, a defesa do filme por Jean Claude Bernardet, em seu blog, e os debates ocorridos no âmbito do DOC TV (polêmica entre Jean-Claude e Eduardo Escorel). O debate do filme –como boa parte da discussão contemporânea do documentário – teve como centro questões éticas que, do ponto de vista dos que o condenaram, são também questões políticas, já que dizem respeito a uma política das imagens, estreitamente associada à avaliação de estratégicas de resistência frente ao estado contemporâneo da sociedade do espetáculo.

Afasto-me aqui –como proposta de exercício analítico - do arcabouço estético e teórico que reúne Ranciére, Agamben, Comolli, e Deleuze, sob o guarda-chuva de uma leitura atualizada do biopoder de Foucault, que preconiza o “risco do real” (Comolli, 2008), abertura ao outro documentado, que se traduz numa estratégia de realização aberta ao imprevisto do encontro, que não reduza a alteridade e sua potência inventiva a golpes de roteirização.



Suspenderei juízos deste tipo para investigar as modulações narrativas das obras estudadas, buscando perceber como são construídas, na imanência da obra, o personagem, seu contexto e as variações de posição oferecidas ao espectador.

(com inspiração no trabalho de Bordwell, num nível mais técnico, e de Ismail Xavier, na análise do campo cinematográfico brasileiro).

Propositalmente, selecionei três obras de estilo e contexto de produção bastante diferentes: um longa metragem de linhagem claramente moderna, realizado por um autor consagrado por suas obras alegóricas (Serras da Desordem); um documentário feito para a televisão por um quase estreante, de composição grotesca e irônica – ou talvez cínica (Jesus no Mundo Maravilha); e um especial de estilo doc-fic produzido para a Rede Globo, por um diretor e roteirista da emissora, por vezes classificado como pós-moderno (Cena Aberta -A hora da estrela).

Obviamente, há alguma provocação nesta aproximação de uma evidente obra-prima moderna (Serras da Desordem) com duas obras televisivas, com claras referências pop. Aposto num cotejo que evidencie, de um lado, a centralidade dos procedimentos ficcionalizantes no filme de Tonacci e, de outro, a pulsação da presença dos documentados nos trabalhos de Furtado e Cannito, resultando numa percepção das diferentes estratégias narrativas como orquestrações autorais, de modo a relativizar o peso de julgamentos éticos, em detrimento dos resultados obtidos como representação.

O conceito de representação é considerado ultrapassado pela linha com a qual busco dialogar criticamente, mas buscarei aqui defendê-lo,, assim como a correlata valorização das lutas pela representação, pela capacidade de diagnóstico social das obras audiovisuais– mais do que de produção de experiências de resistência e desestabilização de identidades agenciadas pelas redes de poderes.



Bibliografia

BERNADET, Jean-Claude, “Jesus no mundo maravilha”.:www.jcbernardet.blog.uol.com.br.



BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz. Campinas: Papirus, 2008



GUIMARAES, César e LIMA, Cristiane. “Critica da montagem cínica”, in Doc On-line, n.07,Dezembro 2009, www.doc.ubi.pt, pp. 6-16.



COMOLLI, Jean-Louis, Ver e poder, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.



MIGLIORIN, Cezar, “Jesus no mundo maravilha, uma carta aberta ao realizador Newton Cannito” in Devires - Revista de Cinema e Humanidades, V.5, n.2, Belo Horizonte, jul/dez. 2008, pp. 73-83.



MIGLIORIN, César (org.) Ensaios do real. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2010



MOUSINHO, Luiz Antônio. “A cena aberta: mimesis, literature, ficção audiovisual”. www.intermidias.com/7miolo/comunicacao_home.htm



XAVIER, Ismail. “As maquinações do olhar: a cinefilia como “ver além” na imanência.” In: Imagem, visibilidade e cultura midiática. Livro da XV Compós. Org.: Médola, A.L.D;Araújo, D. C.; Bruno, F. – Porto Alegre: Sulina, 2007