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  Título
Curadoria e a Construção da Memória Cinematográfica
Autor
Silvia Ramos Gomes da Costa
Resumo Expandido
Minha pesquisa pressupõe que o artefato é uma forma de representação, símbolo de algo abstrato ou ausente, a que se remete por força de convenção ou semelhança. Qualquer objeto industrial ou artesanal, científico ou religioso, utilitário ou abstrato, suporte de informação ou representação afetiva configura-se como conjugação de saberes, de técnicas, de trabalhos, de valores e de elementos da natureza. “Quando, sobre determinado artefato, incide, por algum motivo, uma ação preservacionista, disposta a enquadrá-lo na categoria de patrimônio cultural, é para essa conjugação complexa que essa ação está apontando.” (CHAGAS, 2009, p. 98). Uma política de preservação deve buscar e assentar sua justificativa não na materialidade, mas na representação dos saberes, das técnicas, dos valores, das funções e dos significados que esses objetos ocupam na vida social.

A Federação Internacional de Arquivos Fílmicos (FIAF) reconhece a função do curador como: “A arte de interpretar a estética, a história e a tecnologia do cinema através da coleta, da preservação e da documentação seletiva de filmes e as suas exposições em apresentações arquivísticas." (USAI et al., 2008 apud SOUZA, 2009, p. 297). Trabalhando numa posição de gestor dentro de uma instituição de salvaguarda, ele amplia a coleção prospectando títulos antigos e contemporâneos, planeja conceituamente as exposições e sessões públicas, cria estratégias de patrocínio, supervisiona as atividades de preservação e conservação da coleção de filmes e de seus materiais correlatos e promove o acervo em eventos nacionais e internacionais.

A chegada do cinema digital tem produzido uma ruptura nos processos de realização e essa ruptura afeta as possibilidades de preservação de todos os filmes. As cinematecas se mobilizam para entender o funcionamento do artefato digital e como estender a importância dos materiais e processos fotoquímicos. O chefe de preservação da Filmoteca Española, Alfonso Del Amo García (2006), defende que os suportes, equipamentos e saberes técnicos constituem uma tecnologia, a qual gesta e retroalimenta a linguagem cinematográfica. Já o conservador-chefe do Imperial War Museum, David Walsh (2008), acredita que “os visitantes dos museus de cinema que apresentam essas cabines de projeções abertas só conseguem entreter com as maravilhas dos equipamentos de projeção quando se paga o preço de ignorar o que está passando na tela.” O fenômeno da “experiência cinema” como estética nunca se importou com o tipo de suporte que está na máquina. Mas o artefato audiovisual é um documento histórico do “fazer cinema”.

A questão identificada perpassa pela maneira de categorizar o que seria a autencidade do cinema, isto é, que testemunhos e objetos representariam a arte cinematográfica como ela mesma, sem estar inserida como atividade de conhecimento ou de entreterimento ou apreciação estética. Quais conjuntos de documentos caracterizariam um patrimônio cinematográfico?

As exposições e sessões públicas de uma cinemateca adquirem um significado especialmente importante no momento em que a ameaça de uma amnésia passou a rondar permanentemente o mundo moderno. “Surgiu a necessidade de instituir novas formas de preservação, de memorização, de arquivamento. Pierre Nora fala em 'lugares de memória'. Éric Hobsbawm e Terence Ranger cunharam a expressão 'tradições inventadas'. Em linhas gerais, esses pesquisadores estão se referindo a um processo, enunciando que, não mais havendo uma memória incorporada na tradição e no costume, teria sido necessário criar lugares próprios para a sua construção.” (ABREU, 1994, p. 225) O culto a diretores e sua filmografia não seriam tradições inventadas? Os curadores ao se atribuirem a função de interpretar os acervos cinematográficos, não estariam evocando narrativas entorno deles?
Bibliografia

CHAGAS, Mário. O pai de “Macunaíma” e o patrimônio espiritual. In: ABREU, Regina; ______ (Org.) Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. 2. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2009. p. 97-111. SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo: Tese (Doutorado em Ciência da Comunicação) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009. DEL AMO GARCÍA, Alfonso. Archivos en tiempos de cambio: 62º Congreso de la FIAF, São Paulo, 24 y 25 de abril de 2006. Journal of Film Preservation, n. 71, p. 16-20, jul. 2006. WALSH, David. Nós precisamos mesmo da película? Preservação Audiovisual, nov. 2008. GONÇALVES, José Reginaldo. Autenticidade, memória e ideologias nacionais: o problema dos patrimônios culturais. Estudos históricos, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 264-275, 1988. ABREU, Regina. Entre a nação e a alma: quando os mortos são comemorados. Estudos históricos, Rio de Janeiro, v. 7, n. 14, p. 205-230, 1994.