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  Título
As línguas nativas latino-americanas no cinema latino-americano
Autor
YANET AGUILERA VIRUEZ FRANKLIN DE MATOS
Resumo Expandido
Humberto Mauro introduziu algumas frases em tupi no filme Descobrimento do Brasil, com o objetivo de formular um mito fundador do Brasil que reunisse o índio, o português e seus respectivos idiomas como origem do povo brasileiro. Porém, como se tratava de algumas pequenas frases e como também não tinham legendas, o uso do tupi ficou como um detalhe exótico. Nelson Pereira do Santos fez com que Mauro vertesse para o tupi as falas dos índios, em Como era gostoso meu francês. Essa retomada do tupi brincava com seu caráter exótico, deixando claro o distanciamento que o Brasil criou com as línguas nativas. E Hans Staden, falado em tupi, explicita a distância entre o público brasileiro e o mundo dos índios. No Peru e na Bolívia, grande parte da população é bilíngüe - quéchua ou aimará e espanhol. La teta asustada, de Claudia Llosa, mostra que, no Peru, a língua está se perdendo no cotidiano dos índios que moram nas periferias urbanas. Ukamau, de Jorge Sanjinés, foi um dos primeiros filmes de ficção falados inteiramente numa língua nativa, trazendo a primeiro plano um dado inédito para o cinema de ficção latino-americano: uma língua nativa em evidência numa mídia valorizada como era o cinema.Em Yawar Mallku, Sanjinés criar uma oposição entre o aimará e o espanhol, denunciando a discriminação perpetrada pelos meios institucionais para com aqueles que não falam espanhol. Em Yawar Mallku, Americanos atendem num hospital da zona rural. Como um deles fala um pouco de aimará, ganha a confiança dos índios. Entretanto, esses personagens estão lá para esterilizar as mulheres indígenas. Essa entidade existiu de fato, chamava-se Peace Corps, era financiada pela Fundação Ford e o filme provocou sua expulsão da Bolívia. Uma prática fundamental no processo de colonização foi a rebaixar as línguas nativas. Há muita literatura que procura estabelecer uma relação direta entre o subdesenvolvimento e o fato de grande parte dos índios não falar espanhol. Yawar Mallku se filia aos movimentos milenaristas do começo do século XX , que colocaram as línguas nativas como elemento fundamental para a formação de uma identidade latino-americana e como arma de resistência. Em La nación clandestina, o militante de esquerda morre nas mãos dos torturadores porque não saber aimará. Essa morte pode ser lida como uma metáfora dos movimentos urbanos de esquerda, que apesar de terem conseguido o voto universal, a primeira reforma agrária do continente, não acabaram com a descriminação do o índio. Hamaca Paraguay, de Paz Encina, tem oito longos planos- seqüência com a câmera fixa e não temos acesso às expressões faciais dos protagonistas. O filme brinca com a visibilidade tanto da cena como do próprio cinema paraguaio. Seus enquadramentos quase não são planos, lembram as vistas dos filmes mudos. Essa referência é bastante irônica, faz alusão à definição de primitivismo atribuído tanto ao primeiro cinema como às culturas nativas da América. No filme, quase não vemos nada, mas ouvimos muitos ruídos. Há uma nova equação entre mostrar e dizer. Como não há nenhuma menção aos mitos guaranis das primeiras belas palavras nem ao fato de esses índios se autodenominarem senhores da palavra, o filme não atribui à raça a manutenção do idioma nativo. O filme não deixa de aludir ao uso que se fez do guarani para promover o nacionalismo que levou às várias guerras. Assim, mais do que uma glorificação antropológica do índio, depreende-se uma ruminação histórica, que questiona uma série de relações do contexto social paraguaio. Marca-se a falta de comunicação entre o campo e a cidade, mesmo que todos falem guarani. Além disso, os diálogos estão entremeados com palavras em espanhol e as legendas não estão na norma culta, mas num espanhol paraguaio, deixando de lado a pugna entre metrópole e periferia para se debruçar sobre as questões locais que ficam ocultas pelo bilingüismo tão celebrado do país. Essa absorção dos subtítulos é inédita em toda a história do cinema.
Bibliografia

Claster, Pierre. Le grand parler, Paris Seuil, 1974 Gunning Tom. “Cinema e História – ‘Fotografias animadas’, contos do esquecido futuro cinema. In O cinema no século, org. Ismail Xavier. Rio de Janeiro, Imago. Morettin, Victorio Eduardo. “Produção e forma de circulação do termo Descobrimento do Brasil: uma análise de seu percurso e do filme Descobrimento do Brasil -1937-, de Humberto Mauro”. In Vol. 20. N0, N° 39, São Paulo, 2000 Nagib, Luzia. (2000, 1ª Edição) Utopia do Cinema Brasileiro: Matrizes, Nostalgias, Distopias. São Paulo, CosacNaify. Villagra-Batoux, Delícia. “ El bilingüismo guarani-español en la reforma educativa del Paraguay”. In Education et Societé Plurilíngüe, N° 24 – juin, 2008. Zuccolillo, Carolina Maria – Língua, Nação, Nacionalismo – Um estudo sobre o guarani no Paraguai Doctorate thesis, State University of Campinas S\D.