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  Título
Sobre o olhar como ação (em alguns filmes contemporâneos)
Autor
Juliano Gomes
Resumo Expandido
Proponho aqui pensar algumas idéias iniciais a partir do livro “O Espectador Emancipado” de Jacques Ranciere: um lugar para o espectador no cinema que não seja da suposta passividade e nem da saída dela, na medida em que a suposição da distância, da separação de condição, entre obra e espectador não cessa de somente aumentar ainda mais este desnível que só intensifica a suposta desigualdade onde o artista/autor se encontra num nível "superior" criação do espectador-aprendiz, em relação ao que há para ver, saber e dizer sobre a obra. Para isso é preciso dissolver certas oposições entre olhar e ação, passividade e atividade, aparência e essência, no sentido que deram a esses pares pensadores da arte do século XX como Antonin Artaud e Bertolt Brecht. O propósito deste estudo inicial é pensar tais idéias através de alguns filmes contemporâneos que colocam em cena algumas configurações deste dilema, encenando seus riscos, tensões e posições variadas.



É preciso repensar a premissa onde a arte procura desvendar para o espectador seus pressupostos "segredos atrás da tela" onde o artista precisa assumir sua posição dentro da obra, explicando para quem vê qual é sua função para além das “aparências”. E também colocar em perspectiva a aparente "mitificação" do espectador ativo, que atua diretamente na obra, modificando-a diretamente, interagindo, mudando seus rumos, crença essa asbolutamente contemporânea, e que acaba por partir do mesmo pressuposto de separação de condição entre quem faz a obra e quem vê, como se a igualdade não fosse sua condição a priori (e também a de toda relação entreo que se sabe e o que se ignora).



Neste sentido, além do referencial principal do pensamento de Ranciére que funciona como eixo principal, analisarei também a leitura que Georges Didi-Huberman faz do pensamento de Brecht em relação às possibilidades da arte e dos espectadores hoje, sua posições, disposições limites, recuperando a obra de artista alemão principalmente a partir das idéia de montagem, distância e posição. E estendendo essas estratégias de composição a outros domínios, como o cinema e as artes em geral.



Para fazer este caminho, os flmes “Shirin” (Abbas Kiarostami, 2007), “Filme Socialismo” (Jean Luc Godard, 2009), “Pacific”(Marcelo Pedroso, 2009), “Aterro do Flamengo” (Alessandra Bergamaschi, 2010) e “Um dia na Vida”(Eduardo Coutinho, 2010) funcionarão como ferramentas para discutir essas idéia de uma posição do espectador como criador e suas inflexões em oposição a essa crença na sua posição de aparente desvantagem em relação ao artista.



O filme de Kiarostami como uma investigação do lugar do espectador como um lugar de reflexão, ação e criação, em um incessante jogo de trocas e espelhamentos . Tal obra de Godard como uma espécie de autocrítica de um autor que percebeu esta transição do lugar do artista em relação ao espectador na contemporaneidade e a tematiza bastante diretamente neste grande ensaio fílmico, encenando sua própria impossibilidade como afirma o crítico Fábio Andrade em sua crítica sobre o "Filme Socialismo". Já Marcelo Pedroso, a partir de elementos muito próximos do filme de Godard, põe em cena elementos que já configuram uma ruptura com o modelo do pressuposto da separação de condição entre o artista-mestre e o espectador-aprendiz, assim como faz também o filme mais recente de Eduardo Coutinho, que de alguma maneira simula este espectador que intervém na imagem da televisão e a recria incessantemente. E por último, o média-metragem de Alesssandra Bergamaschi, que aborda de maneira muito direta o ato de olhar como encenação e como produtor de novas encenações e associações na espaço da cena e da vida.

Bibliografia

ANDRADE, Fábio. À Frente. http://www.revistacinetica.com.br/filmsocialisme.htm

ARTAUD, Antonin. Linguagem e Vida. Editora Perspectiva, São Paulo, 2004

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. 3 ed., São Paulo

BLANCHOT, Maurice. A Conversa Infinita. Escuta, São Paulo, 2010

BRECHT, Bertolt. Diário de Trabalho. Editora Rocco, São Paulo, 2002

DIDI-HUBERMAN, Georges. Cuando las imagenes toman posicion. A. Machado Libros, Madri, 2008

MONDZAIN, Marie José. A Imagem pode matar?. Nova Veja, Lisboa, 2009

RANCIERE, Jacques. A Partilha do Sensível. Editora, 34, São Paulo, 2009

RANCIERE, Jacques. O Espectador Emancipado. Orfeu Negro, Lisboa , 2010

RANCIERE, Jacques. O mestre Ignorante. Autêntica, Belo Horizonte, 2002

“Shirin” (Abbas Kiarostami, 2007),

“Filme Socialismo” (Jean Luc Godard, 2009),

“Pacific”(Marcelo Pedroso, 2009),

“Aterro do Flamengo” (Alessandra Bergamaschi, 2010)

“Um dia na Vida”(Eduardo Coutinho, 2010)