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  Título
Gestos e comunicabilidade em Found Footage
Autor
Luiz Garcia Vieira Junior
Resumo Expandido
Dentre as várias maneiras do reemprego de imagens (Brenez), os filmes found footage evidenciam seu traço mais característico no tratamento essencialmente ambíguo das imagens que exploram. Ao trabalharem por desvio a montagem, inscrevem-se em um território híbrido onde o objeto “arrancado” de seu contexto e intrinsecamente provido de uma potência de uso é reinserido na elaboração de outro filme, adquirindo uma autonomia própria, enquanto novo objeto, mas ao mesmo tempo implicando em uma “arqueologia” dessas imagens. A memória da película torna-se o cerne desses filmes, nos quais a materialidade do suporte complementa-se e confunde-se com a historicidade que carrega. O registro, suas marcas, sua qualidade estética, aqui pensada não em termos da tradição representativa da arte, mas a instalada pelo regime estético que desalinha hierarquias e evidencia seus contrários (Rancière). O realizador austríaco Peter Tscherkassky em Instructions for the Light and Sound Machine (2005), no qual usou trechos de Il Buono, il Brutto, il Cattivo (1966) de Sergio Leone, através de seu método artesanal de trabalho chama atenção para a questão das propriedades analógicas da película e de um tipo cinema e de filmes que para ele estão condenados a desaparecer. Para isso toma de empréstimo o western spaguetti de Leone que assaltou o mais mítico dos gêneros do cinema hegemônico e desenha sua alegoria. Partindo do estudo das instruções mecânicas encontradas classicamente nestas realizações, traça suas reflexões acerca desta mortalidade, do “START” ao “END” nas extremidades do filme, mas ao mesmo tempo convoca as agregações como a de um número “7” anonimamente grafado sobre a película em um dos rolos da cópia de trabalho. O gesto de Tscherkassky também se confunde com a instrução marcada por um projecionista que acaba por participar involuntariamente de um filme experimental contemporâneo. Agamben afirma que vivemos em uma idade que perdeu seus gestos, e o cinema se tornou uma maneira de recuperar e registrar essa perda. O gesto artístico de Tscherkassky serve como mediação entre aos gestos registrados nos corpos dos atores e o gesto como resquício da intervenção do projecionista que agora também faz parte do filme. Indica-nos aquilo que Agamben chama de medialidade pura, como a forma básica de comunicabilidade.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Infancy and History - The destruction of experience. Ed. Verso, New York, 1993. BRENEZ, Nicole. Montage intertextuel et formes contemporaines du remploi dans le cinéma experimental. (in) Cinémas : revue d'études cinématographiques / Cinémas: Journal of Film Studies, vol. 13, n° 1-2, 2002, p. 49-67. RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível – estética e política. Ed. 34, São Paulo, 2005. TSCHERKASSKY, Peter. Epilogue, Prologue – autobiographical notes along the lines of a filmography. (in) Peter Tscherkassky (ed) Horwath, Alexander e Loebenstein, Michael. Synema Publikationen, Viena, 2005.