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  Título
Ellis Island – Corpos que posam, um passado encenado
Autor
Milena de Lima Travassos
Resumo Expandido
As ideias de encenação, performance e mise en scène, e ainda de interrupção, pose, ruína e anacronismo comparecem no filme “Ellis Island” (1981) de Meredith Monk, e o filme é uma espécie de potencialização dessas ideias. Interessa, pois, pensar um tipo de produção que toma como um de seus pontos de partida o corpo em cena para que assim se possa desdobrar algumas questões como: o corpo do outro e o nosso próprio corpo, quando diante de uma câmera, performa para ela? Há sempre uma performance em jogo no ato de uma filmagem? Com qual variedade de formas uma performance pode se dar? “Ellis Island” remete a um lugar, uma ilha na foz do Rio Hudson, situada no porto de Nova Iorque, que de 1892 a 1954 era destino inevitável para os imigrantes que desejavam entrar nos Estados Unidos da América. No filme, o espectador se depara com um passado encenado, reinventado, também com um presente esvaziado, mas cheio de perguntas. Monk, ao filmar um lugar repleto de histórias sobre a imigração nos Estados Unidos, não optou por entrevistar alguns imigrantes ou descendentes que pudessem narrar as suas experiências na ilha. Nem mesmo se utilizou de documentos ou pesquisas para validar suas imagens. Sua escolha foi a de convidar atores/performers que encenassem a rotina da ilha. O lugar escolhido foram as próprias instalações, agora em ruínas, de Ellis Island. Em “Ellis Island” percebe-se uma deterioração do espaço que remete de igual modo à deterioração do tempo, ou seja, o que parece restar são fragmentos de espaço, de tempo e de memória. Ao adotar o procedimento de catar resíduos no lixo da história oficial, Meredith Monk se aproxima do gesto de Walter Benjamin quando procurou construir uma imagem da Europa do século XIX valendo-se dos seus rastros. A imagem que Monk constrói se faz como a de um lugar perdido no tempo, um lugar de passagem, de exame, de triagem, de encontros, de diferenças, um lugar situado em uma ilha habitada por ruínas, por memórias, por resquícios de corpos que por lá passaram. Este modo de contar a história é oposto àquele que pretende contá-la “como ela realmente foi”, isto é, como aquele que cultiva as ilusões de neutralidade do artista/diretor ou do historiador. Contar a história como ela “realmente” aconteceu, não é o que se pretende em “Ellis Island”, o filme se estrutura sem pretensões de neutralidade ou de totalidade, é muito mais uma aposta criativa na fricção do documentário com a ficção, com o teatro e com as artes visuais. Os corpos, que muitas vezes parecem posar para a câmera, estão imersos em imagens de caráter anacrônico. São corpos-pose em relação com um lugar em ruínas, com um passado, um presente e uma câmera movente. O inusitado é que nessas poses fulgura um gesto de interrupção, uma quebra, um estranhamento, que nos distancia e, ao mesmo tempo, nos afeta. Um gesto que diz: sei que estou posando para uma câmera, meu corpo se prepara para isso. Damos ênfase nas ideias de mise en scène e de performance e na relação dos elementos em cena com a câmera, pois apostamos na afirmação de que há sempre uma performance em jogo no ato da filmagem de um corpo, seja em filmes documentais e/ou em filmes artísticos. Pensar a presença de uma performance e de uma mise en scène nos trabalhos de documentário, de vídeo arte e nos trabalhos de vídeo-performance é afirmar a presença de um corpo afetado e em relação, de um lugar em relação, de objetos em relação, de uma câmera em relação. Talvez “Ellis Island” de Meredith Monk aponte não apenas para um diálogo entre o cinema, o teatro e as artes visuais. Esse trabalho pode ser um dos muitos exemplos que nos falam de outra forma de fazer “cinema”, nele a modalidade discursiva que pauta o formato clássico do cinema não é mais a única maneira possível de dar conta das experiências estéticas e políticas com a vida, com o mundo, com o outro e suas imagens; quando o mundo e o corpo são reinventados.
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