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  Título
O alumbramento e o fracasso: uma leitura de Estrada para Ythaca
Autor
Denilson Lopes Silva
Resumo Expandido
Minha leitura parte duma tensão constitutiva do filme, entre a paisagem, em particular, a presença das nuvens, e a experiência do fracasso. A importância da paisagem evoca a experiência do alumbramento, do sublime. Na tensão entre o alumbramento e o fracasso aparecem não só uma não-inserção num modelo de cinema brasileiro comercial vitorioso, a busca de uma outra encenação, mas também uma busca afetiva e se a arte pode gerar um modo de vida distinto. O fracasso talvez seja a sombra que paira no filme como uma nuvem ou fantasma até sobre a possibilidade da amizade. Trata-se, contudo, de fazer do fracasso não algo apenas qualificado de forma negativa pelos sentidos de uma sociedade que associa sucesso e mercado. Estranho e simples caminho assombrado pelo amigo morto, por Glauber Rocha e por discos voadores. Tudo é divino, maravilhoso, mas concreto, real. A viagem é feita por pulos espaciais e temporais, elipses. Não sabemos não só onde estamos no filme, mas também não sabemos o quanto seus personagens caminharam. Eles não pertencem àquela cidade do qual só vemos um bar e uma rua noturna mal-iluminada. Eles não pertencem a nenhum país, a nenhuma região. Nada de regionalismo, nada de sertão mítico, alegoria ou microcosmo. As paisagens verdes, nubladas e chuvosas de onde emerge uma luz pálida mesmo quando o sol está claro não são um lugar impessoal, mas na potência da sua materialidade, da deriva do olhar elas se constituem sob um olhar que já é viver, estar com. Não são paisagem para simplesmente serem contempladas mas para se dissolver nelas. Não imagens saturada de referências no intelectualismo distanciado de Godard nem no pastiche pós-moderno. Imagens onde se possa viver. Há o desejo, o afeto de seguir o caminho mostrado pelo amigo morto. Ele nos fala que embora a política esteja em tudo, ela não deva ser tudo e muito menos que estética e política devam ser indissociadas, o que quer que estes termos signifiquem. Há um espaço do afeto e porque não dizer da beleza que são irredutíveis, não colonizáveis e isto nada tem de esteticismo, arte pela arte, arte como religião. Sem grandes perspectivas, o fracasso do amigo se constitui menos numa senha de desistência, mas de um frágil fazer que corre o risco da abundância, na compulsão de fazer imagens, como se vê na já extensa produção associada ao coletivo Alumbramento. Se se trata da formação do jovem artista independente, como Ruy Gardnier apontou em sua resenha de Os Monstros (2011), filme posterior dos mesmo realizadores de
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