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  Título
Fazendo gênero: chanchadas e comédias, Brasil e Portugal, anos 30-50
Autor
Afrânio Mendes Catani
Resumo Expandido
Muitas das chanchadas brasileiras e das comédias portuguesas produzidas nas décadas de 1930, 1940 e 1950 apresentavam algumas situações básicas que se repetiram ao longo de dezenas de filmes: mocinho e mocinha se metem numa situação delicada; cômico (o amigo do mocinho, da mocinha ou de ambos) tenta protegê-los; vilão leva vantagem, inicialmente; vilão perde a vantagem e é derrotado, com a participação do mocinho e do cômico. Ou então, o que era mais típico nas comédias lusas – embora em fitas brasileiras também não esteja ausente –, num dos núcleos que compõe a história encontramos membros de uma família que, através de várias artimanhas, conseguem sobreviver extorquindo dinheiro e outras vantagens de parentes ou de pessoas que se encontram em situação financeira privilegiada; a revelação da situação real ocasiona grande conflito que, no final, se resolve de maneira favorável ao lado explorador, que acaba se regenerando. Quer do lado brasileiro, quer do lado português, havia uma quantidade significativa de números musicais – principalmente sambas, marchinhas, boleros e fados – apresentados pelos intérpretes que faziam sucesso no momento, nas rádios e em casas de espetáculo; havia uma produção em série, originada de estúdios que procuravam manter elenco, equipe técnica e diretores mais ou menos fixos; adaptavam-se peças teatrais de grande sucesso, em especial comédias e revistas musicais, ao menos na primeira fase do ciclo de elaboração de tais películas. No caso das fitas de Portugal, a partir de argumentistas e roteiristas experientes, lograva-se captar o linguajar de parcelas da população urbana, os problemas quotidianos dos segmentos mais humildes e os conflitos envolvendo a cidade e o campo. Tais comédias, como escrevi o ano passado, obtiveram amplo êxito de bilheteria porque apresentavam imagens em que os protagonistas são tipos simples (lavadeiras, merceeiros, floristas, donas de pensão, caixeiros, sapateiros, motoristas, dançarinas, cantores,viciados em jogos, pequenos funcionários públicos, torcedores de futebol) que se envolvem em ações equivocadas e de duplo sentido, que têm o linguajar das ruas, que circulam por belas arquiteturas urbanas, quase sempre ao som da música popular portuguesa de então. Nas chanchadas brasileiras o personagem simples tem sua existência mais próxima de uma ordem estamental do que de uma estrutura de classes. É um universo estamental mesclado com fundamentos de classe que acaba caracterizando personagens como a manicure, o camelô, o engraxate, o compositor de morro, ricos sem posse, desqualificados, pretendentes ao estrelato etc. São agentes sociais que não assimilaram a individualização da sociedade urbano-industrial, mas nem por isso são esmagados ou achatados pelas relações que se estabelecem no interior dessa sociedade. Quando os personagens trabalham, não são operários do sistema, eles não são protegidos por legislações trabalhistas ou sociais. Nos dois países a crítica escrevia que aquilo tudo não passava de um conjunto de filmes mal concebidos e improvisados, vulgares e grosseiros, fruto de humores forçados e de conivência com o regime – as ditaduras salazarista e varguista. Espero, ao final da pesquisa, conhecer com detalhe a filmografia portuguesa do período de forma próxima a que possuo da brasileira, de modo a identificar o que chamaria, de forma meio desajeitada, de “o espírito da época”, captando o modo de vida de parte da população do país – Sérgio Augusto, em Este mundo é um pandeiro: a chanchada de Getúlio a JK, por exemplo, fala dos bondes, dos lotações, de bebidas, cremes, sabonetes, loções, cigarros, gibis, revistas semanais e revistas de moda, caramelos, clubes, restaurantes, bares, hotéis, rádios e televisores, canetas, lapiseiras e políticos do período. Gostaria, insisto, de captar tudo isso referente a Portugal e de estabelecer um padrão de comparabilidade entre as chanchadas brasileiras e as comédias portuguesas que foram fabricadas nos anos de 1930, 1940 e 1950.
Bibliografia

AUGUSTO, S.Este mundo é um pandeiro: a chanchada de Getúlio a JK. SP: CB/Cia. das Letras,1989.

BAPTISTA, T. A invenção do cinema português. Lisboa: Tinta-da-China, 2010.

GRANJA, P. J. A comédia à portuguesa, ou a máquina de sonhos a preto e branco do Estado Novo. In: TORGAL, L. R. (coord.). O cinema sob o olhar de Salazar. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000.

GRANJA, P. J. O Leão da Estrela. In: FERREIRA, C. O. (coord.). O cinema português através dos seus filmes. Porto: Campo das Letras, 2007.

PINA, L. de. História do cinema português. Lisboa: Europa-América, 1986.

SALLES, M. Em busca de um novo cinema português. Covilhã: Labcom, 2011.

SHAW, L. Aldeia da Roupa Branca. In: FERREIRA, C. O. (coord.). O cinema português através dos seus filmes. Porto: Campo das Letras, 2007.

SOUSA, J. I.; CATANI, A. A chanchada no cinema brasileiro. SP: Brasiliense, 1983.

VIEIRA, J. L. A chanchada e o cinema carioca (1930-1955). In: RAMOS, F. (Org.). História do cinema brasileiro. SP: Art Editor.