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  Título
Acabaram-se os otários: cinema e disco na chegada do filme sonoro
Autor
Rafael de Luna Freire
Resumo Expandido
A chegada do cinema sonoro ao Brasil ocorreu em meio ao processo de popularização dos discos gravados por processos elétricos. Este teve início em 1928, quando a Odeon instalou o primeiro estúdio e fábrica para a gravação e fabricação de discos elétricos no país, sendo seguida, em 1929, pela Columbia e Victor. Recebido como uma revolução na qualidade técnica, o advento da gravação elétrica impulsionou a indústria fonográfica brasileira, representando “um amplo movimento tecnológico, corporativo e de transformação no padrão auditivo dos ouvintes” (GONÇALVES, p. 58).

Ainda que os toca-discos permanecessem caros, sendo sua aquisição restrita aos consumidores de mais alto poder aquisitivo, a presença da música executada em discos no espaço público se ampliou enormemente nesse período. Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro passaram a viver uma “gramophonoradiomania”, conforme a revista O Malho. No mesmo tom, a Fon-Fon! falava em “victrolomania” ao comentar como as casas de discos “aparecem em todos os pontos da cidade, numa proporção extraordinária”.

Mais que o rádio – ainda numa fase incipiente, se expandindo principalmente a partir de 1932 – era o disco que estava no auge da moda no Brasil. A novidade elétrica conquistava a atenção dos transeuntes das grandes cidades (alcunhados pela imprensa de “basbaques da vitrola”) com a expansão de lojas e outros espaços nos quais havia a execução pública de registros sonoros, muitas vezes substituindo a função de chamariz anteriormente exercido pelos pianos e pianolas.

Nesta comunicação pretendo reforçar a necessidade de se compreender a recepção dos primeiros filmes sincronizados no Brasil dentro do contexto de emergência e popularização da gravação elétrica de discos. Afinal, inicialmente os filmes sonoros de Hollywood exibidos no Brasil constituíam-se, sobretudo, em cópias com música e ruídos sincronizados por discos (vitaphone). Os grandes e luxuosos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro que foram convertidos rapidamente para o cinema sonoro a partir de abril e julho de 1929, respectivamente, tornaram-se mais um espaço público no qual o público poderia se deleitar com a chamada “música em conserva”, não apenas durante o filme, mas também antes e nos intervalos dos programas.

Ao mesmo tempo, conforme atestava O Malho, “o ‘cinema falado’ [...] trouxe um grande impulso para a indústria de discos”, tornando fenômenos de vendas as gravações das músicas e canções dos primeiros e bem-sucedidos filmes musicais. Outras vezes, uma canção se tornava conhecida em disco antes da estréia de um filme no qual ela era interpretada, sendo então utilizada na publicidade de seu lançamento.

Essa interação entre disco e cinema se refletiu não apenas no setor da exibição cinematográfica – ressaltando que os músicos das salas de exibição perderam seus empregos mais por conta das vitrolas elétricas do que dos filmes sonoros –, como também no da produção.

Além das experiências dos filmes curtos realizados pelo Circuito Nacional de Exibidores (CNE) e por Paolo Benedetti – filmagens de músicos dublando os próprios discos pré-gravados –, merece especial atenção o caso do filme Acabaram-se os otários, por ter sido o primeiro longa-metragem sincronizado por “discos elétricos” feito no Brasil. A intenção é aprofundar o conhecimento sobre o filme de Luiz de Barros a partir de sua relação com o contexto fonográfico, atentando, por exemplo, para o então recente sucesso da música sertaneja e dos discos caipiras.

Na comunicação será apresentada ainda uma tentativa de identificar e listar todos os discos que foram projetados em sincronismo com filme, em 1929. A maior parte deles constituía-se de músicas, nacionais e estrangeiras, já lançadas em discos. Alguns poucos, porém, representavam a primeira experiência conhecida no cinema brasileiro de registro mecânico-sincrônico de imagem e som. Localizados em acervos fonográficos brasileiros, essas gravações serão apresentadas aos participantes da SOCINE em primeira mão.
Bibliografia

Livros,artigos e teses:

CRAFTON, Donald. The Talkies: American Cinema’s Transition to Sound, 1926-1931. Berkeley: University of California Press, 1997.

FREIRE, Rafael de Luna. Truste, músicos e vitrolas: a tentativa de monopólio da Western Electric na chegada do cinema sonoro ao Brasil e seus desdobramentos. Imagofagia: Revista de la Associación Argentina de Estudios de Cine y Audiovisual, Buenos Aires, n. 5, abr. 2012.

GONÇALVES, Camila Koshiba. Música em 78 rotações: “Discos a todos os preços” na São Paulo dos anos 1930. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2006.

MORAES, José Geraldo Vinci de. Polifonia na metrópole: história e música popular em São Paulo. Tempo, Niterói: UFF, v. 5, n. 10, dez. 2000.



Periódicos citados:



Fon-Fon!, n. 41, 12 out. 1929.

O Malho, n. 1402, 27 jul. 1929.

O Malho, n. 1409, 14 set. 1929.