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  Título
[Rec] como paradigma do sound design em falsos documentários de horror
Autor
Rodrigo Octávio D Azevedo Carreiro
Resumo Expandido
Desde o fim dos anos 1990, assistimos à consolidação de um subgênero específico do cinema de horror que parece estar empurrando os limites dos parâmetros criativos do sound design, pelo menos dentro desse gênero fílmico, em direção a uma estética próxima do documentário, que ressalta, valoriza e tenta preservar certo grau de imperfeição técnica. Esse subgênero é formado pelos falsos documentários de horror, ou “found footage films”, que desde 1999, quando o formato narrativo ganhou ares de subgênero a partir do lançamento de A Bruxa de Blair, tem crescido exponencialmente. Já exploramos as principais características desse novo filão do filme de horror no último encontro da SOCINE, em 2011. Naquela ocasião, observamos que o aspecto criativo mais central para a concepção e realização sonora dos falsos documentários de horror consiste no equilíbrio entre dois princípios fundamentais do registro cinematográfico: a legibilidade do som (ALTMAN, 1992), que se traduz na clareza sonora (particularmente dos diálogos) e é necessária para que o público possa acompanhar a progressão dramática do enredo; e a verossimilhança (RUOFF, 1992), através da qual certo grau de “sujeira” na apresentação sonora é mantida, ou artificialmente construída, de forma a alimentar a credibilidade no estatuto amador dos registros que constroem a tessitura da trama.Nesta apresentação, pretendemos analisar o sound design de [Rec] (2007), de Paco Plaza e Jaume Balagueró. O filme espanhol foi escolhido porque acreditamos ser, entre as muitas dezenas de títulos pertencentes ao subgênero (nossa pesquisa soma 98 títulos lançados entre 1980 e 2012), aquele que consolidou o modelo mais bem acabado de sound design, tendo se tornado seu paradigma. Não nos parece coincidência que todo o trabalho de desenho de som ouvido em [Rec] tenha sido planejado a partir da busca por um ponto de equilíbrio entre a legibilidade narrativa e a verossimilhança documental (TARRAGÓ, 2010).Alguns aspectos criativos que destacam [Rec] de outros falsos documentários são enumerados a seguir:(1) mixagem realizada quase toda em mono ou estéreo, como uso mínimo e discreto dos canais surround (evidentes apenas nos sons de baixas freqüências e/ou no terceiro ato); (2) vasta variedade de ruídos que caracterizam a imperfeição do registro sonoro captado na locação (microfonia, queda de sinal, sinais saturados etc.); (3) ausência total de música extra-diegética; (4) exploração da textura acústica muito particular da locação principal (um prédio antigo em Barcelona, com cômodos amplos e de pé direito alto, características que geram ambientes com muita reverberação); (5) clareza nas vozes dos atores, obtida a partir de uma estratégia de captação capaz de registrar planos-sequência em até 10 canais separados para obter um som direto limpo e de alta qualidade, que possa ser tornado “imperfeito” nos estágios de pós-produção, de modo a preservar a impressão de verossimilhança sem prejudicar a legibilidade; (6) uso amplo de sons fora de quadro para injetar tensão e ameaça às cenas (técnica comum em filmes de horror), a partir da escolha criteriosa de sons compatíveis com a narrativa; (7) inclusão de cenas em que personagens manipulam microfones e explicam ao público as condições necessárias para se captar corretamente o áudio, o que serve de justificativa diegética para que determinados momentos dramáticos sejam compreendidos como tecnicamente possíveis.A análise pode nos mostrar como conjugar de forma harmônica os princípios sonoros da legibilidade e da verossimilhança.Também nos parece claro que o lançamento de [Rec] tornou-se um marco entre os falsos documentários de horror. Até então, os sound designers que trabalhavam com o subgênero empregavam técnicas que faziam o som de cada filmes pender ora para a legibilidade, ora para a verossimilhança. O filme espanhol, porém, parece ter atingido um ponto de equilíbrio que se tornou referência e parâmetro central dentro do subgênero.
Bibliografia

ALTMAN, Rick. Sound Theory, Sound practice. New York: Routledge, 1992.

CARREIRO, Rodrigo. Sobre o som no cinema de horror. Ciberlegenda. Rio de Janeiro, v. 24, n. 1. 2011.

HAYWARD, Philip. Terror Tracks: Music, Sound and Horror Cinema. London: Equinox Publishing, 2009.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2005.ROSCOE, Jane. Faking It. Manchester: Manchester University Press, 2002.RUETT, Jeffrey K.