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  Título
Cinema e transgeneridade: proposta de periodização
Autor
Luiz Francisco Buarque de Lacerda Júnior
Resumo Expandido
A transgeneridade - entendida aqui como condição relativa a toda pessoa cujo comportamento, expresso ou latente, diverge, de forma temporária ou permanente, do padrão de conduta fixado e aceito pela sociedade para o gênero que lhe foi atribuído ao nascer - esteve presente no cinema desde os seus primórdios. Analisando filmes que trazem personagens transgêneros, podemos extrair algumas tendências em sua representação, ao longo da história do meio.

Algumas delas mantiveram uma presença constante ao longo do tempo, como no caso do travestismo farsesco, onde personagens travestem-se devido a contingências do enredo. É da tensão entre o comportamento de gênero original e o adotado que filmes como A Florida enchantment (Sindey Drew, 1914), A woman (Charles Chaplin, 1915), Quanto mais quente melhor (Billy Wilder, 1959), Tootsie (Sidney Pollack, 1982), Victor ou Victória? (Blake Edwards), Uma babá quase perfeita (Chris Columbus, 1993) e Se eu fosse você (Daniel Filho, 2006), extraem seu humor.

Outras tendências são temporalmente localizadas, como por exemplo, o uso de uma transgeneridade parcial (efeminação masculina, masculinização feminina) como signo visual de homossexualidade, adotada com mais ênfase em filmes até os anos 1960. Este uso parece estar diretamente relacionado à solidificação desta relação no senso comum, a partir do século XIX, ratificada por pesquisas científicas de especialistas como Karl Heinrich Ulrichs e Havelock Ellis, que abordavam a homossexualidade a partir de conceitos como inversão sexual e hermafroditismo interior, ou seja, ligada um "desvio" de gênero, e pela própria cultura homossexual masculina da época, surgida entre os frequentadores das Molly Houses, bordéis masculinos das metrópoles, que adotavam trejeitos femininos. Esta concepção seria parcialmente desfeita a partir dos relatórios sobre o comportamento sexual humano do biólogo Alfred Kinsey, amplamente lidos nos anos 1950, em todo o mundo.

Uma outra tendência é encontrada em muitos filmes das décadas de 1960, 70 e 80, que irão ressaltar o caráter transgressor e/ou ameaçador da transgeneridade. Isto ocorre, por exemplo, em boa parte dos filmes pertencentes ao cinema underground americano, de nomes como Jack Smith, Ken Jacobs, Andy Warhol, Paul Morrissey e John Waters, onde o corpo transgênero é utilizado como forma de transgressão dos valores burgueses que regulam sexo e gênero. Já o cinema mainstream utilizou em muitos filmes destas décadas a transgeneridade como signo de desequilíbrio mental, com a qual adornou vários de seus vilões. O mais notório deles, Norman Bates, de Psicose, inaugura o período ainda em 1960, sendo sucedido por vilões de filmes como Capricho (Frank Tashlin, 1967), Freebie and the bean (Richard Rush, 1974) e Vestida para matar (Brian De Palma, 1981).

É só a partir dos anos 1990 que o cinema começa, de forma mais sistemática, a investigar as vivências transgenéricas do mundo contemporâneo, num primeiro momento a partir de um olhar exterior, que é tragado pela transgeneridade à própria revelia, como nos filmes Traídos pelo desejo (1992) e M. Butterfly (1993), e logo depois colocando-se dentro da experiência transgenérica, como nos casos de ,Minha vida em cor-de-rosa (1997), Meninos não choram (1999), Transamerica (2005) e Tomboy (2011).

Observando estas tendências, nosso trabalho propõe uma periodização da relação entre o cinema e a transgeneridade, relacionando os períodos identificados com o contexto social e cultural que os originou. Adicionalmente, ressaltaremos dentro de cada período alguns filmes pontuais que, mesmo fugindo das tendências identificadas, mostram-se relevantes para questões da transgeneridade.

Bibliografia

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