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  Título
O cinema político e os gêneros em Procissão dos Mortos, de Luis Sérgio Person
Autor
Laura Loguercio Cánepa
Resumo Expandido
O cinema fantástico, entendido como aquele dedicado a ficções que remetem a imaginários que transcendem o mundo natural, embora se apresente no cinema brasileiro de maneira diluída em diversas formas e diferentes períodos, tem também uma trajetória própria em um grupo de filmes que o assumem de maneira declarada e autoconsciente – e o estudo de tal trajetória ainda permanece disperso nas pesquisas sobre o nosso cinema.

Neste trabalho, quer-se discutir um desses filmes: o curta-metragem de horror Procissão dos Mortos, dirigido por Luis Sérgio Person, que foi parte do longa em episódios Trilogia de Terror, produzido em 1968, em São Paulo, com a participação de Person, José Mojica Marins e Ozualdo Candeias.

O filme, baseado na série de televisão Além, muito além do além, apresentada por Mojica e escrita por Rubens Francisco Luchetti para a TV Bandeirantes em 1967/68, foi uma curiosa reunião de cineastas muito diferentes entre si, mas que compartilhavam naquele momento o interesse pelo gênero horror. No caso do filme de Person, esse interesse se traduz na busca de várias referências do cinema fantástico paulista (particularmente dos filmes O Saci, de Rodolfo Nanni, lançado em 1953, e de À meia-noite levarei sua alma, de Mojica, lançado em 1964) reunidas a uma história de assombração inspirada na morte de Ernesto Che Guevara, ocorrida em 1967.

O que se deseja observar na análise do filme são as estratégias usadas pelo diretor para estabelecer uma clara ligação entre as possibilidades do cinema de gênero (no caso, os gêneros fantástico e de horror) e do cinema político, que então eram vistos como formas opostas de se fazer cinema no Brasil. Nesse sentido, pretende-se mobilizar principalmente a discussão da abordagem semiopragmática dos gêneros, proposta por Rick Altman (2004), com o intuito de examinar a apropriação de elementos do gênero fantástico e do horror de maneira bastante específica pelo filme de Person.

Vale mencionar que filmes posteriores do diretor, especialmente a paródia de western Panca de Valente (1968), lançada pouco depois de Procissão dos mortos, apontam para o mesmo caminho, o que reforça a viabilidade dessa proposta de análise de alguns filmes de Person pelo viés do diálogo com os gêneros cinematográficos canônicos.
Bibliografia

ALTMAN, Rick. Film/Genre. Londres: British Film Institute, 2004.

BARCINSKI, André; FINOTTI, Ivan. Maldito – a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.

CÁNEPA, Laura Loguercio. O Saci e Procissão dos Mortos: Autorreferência fantástica no cinema paulista. Revista Rumores, n. 6, set/dez 2009, São Paulo.

LABAKI, Amir. Person por Person. Organização e notas Amir Labaki. Säo Paulo: CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL, 2002.

MORAES, Ninho. Radiografia de um filme: São Paulo S.A., de Luis Sérgio Person. São Paulo: Imprensa Oficial - Coleção Aplauso, 2010.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.