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  Título
Música em cena: breve análise do documentário Hermeto, Campeão
Autor
Cristiane da Silveira Lima
Resumo Expandido
Propomos para este seminário uma breve análise do documentário brasileiro Hermeto, Campeão, de Thomaz Farkas (1981), que retrata o compositor e multiinstrumentista Hermeto Pascoal, em meio a ensaios e improvisos em grupo, realizados em sua casa, no bairro Jabour, no subúrbio do Rio de Janeiro. O filme integra o corpus da pesquisa que venho desenvolvendo no PPGCOM-UFMG intitulada “Música em cena: um estudo sobre os componentes sonoros da escritura do documentário brasileiro”. Nesta pesquisa, investigamos de que maneira se articulam os componentes sonoros na escritura dos documentários brasileiros que têm a música como elemento central. A pergunta se faz necessária uma vez que, embora a música – fenômeno essencialmente sonoro – seja um tema recorrente nos documentários brasileiros contemporâneos, pouco se escreveu sobre o seu papel na escritura do documentário. Mas para compreender o lugar que a música assume nos filmes, é preciso levar em consideração os outros sons (a voz, o ruído) e também o silêncio.

A pesquisa tomou como ponto de partida algumas provocações feitas pelo cineasta, teórico do cinema e crítico de jazz, Jean-Louis Comolli, ao se perguntar sobre como filmar aquilo que se passa entre os músicos, como filmar a música enquanto uma relação. Diante da “essencial invisibilidade da música” (COMOLLI, 2004, p.323), o autor critica o fato de que o cinema muitas vezes apenas confere-lhe uma face, uma visibilidade. De que maneira poderiam os filmes inscrever o corpo sonoro da música em sua escritura? Como poderiam alcançar o invisível da experiência musical? Ele mesmo propõe uma resposta: “Filmar a escuta. Há talvez mais música no rosto daquele que escuta do que no daquele que toca” (COMOLLI, 2004, p.323).

Se por um lado existe uma lista infindável de filmes brasileiros recentes que optaram por filmar a música, por outro, arriscamos dizer que poucos deles fazem mais do que ‘registrar a música sendo executada por um intérprete’. A impressão geral que temos é de que muitos destes filmes são bem pouco musicais(!).

Em nossa pesquisa, ao contrário, optamos analisar filmes que parecem inscrever o corpo sonoro da música de outro modo, articulando som e imagem de forma mais complexa. É preciso lembrar que no cinema de ficção clássico, a música “na maior parte do tempo funciona como uma base que o espectador não ouve por si mesma, mas a percebe de forma difusa no amálgama que compõe a ação na tela” (STAM apud COSTA, 2008, p.14). Usada deste modo, ela é feita para criar climas, entrar e sair sem causar impactos. Entretanto, é de se supor que o documentário, ao filmar a música, trate-a como elemento que deve ser ouvido por si mesmo. Isso implicaria em engajar o espectador em uma outra escuta.

Hermeto, Campeão registra o processo criativo de Hermeto Pascoal e sua banda. Vê-se a liberdade com que o músico explora os diferentes instrumentos – dos tradicionais saxofone, flauta, teclado, até serrotes, pedaços de ferro, a voz (em seus registros falado e cantado) e toda sorte de sons corporais. Em alguns momentos, é possível acompanhar o processo de composição de Hermeto, que se inspira em sons da natureza, produzidos pelos animais – como o relinchar do jegue, o zumbido das abelhas e o coachar de sapos. O filme incorpora em sua escritura todos esses ruídos que, nas mãos de Hermeto, se tornam material de expressão e experimentação. Os depoimentos são usados no filme de forma pontual, prevalecendo a música. Há todo um empenho do filme em engajar o espectador numa escuta atenta; em alguns momentos inclusive o filme radicaliza e opta pela tela escura (sem imagens), num claro esforço de trazer os componente sonoros para o primeiro plano.

Acreditamos que, ao analisar de que forma Hermeto, Campeão inscreve o corpo sonoro da música em sua escritura, podemos trazer uma modesta contribuição para a reflexão sobre o som no cinema documentário (já que os estudos de um modo geral privilegiam a ficção) e para as discussões do Seminário Estudos do Som.
Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. A entrevista. In: Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Cia das Letras, 2003.

BURCH, Noël. Sobre a utilização estrutural do som. In:Práxis do cinema. Lisboa: Editorial Estampa, 1973. pp. 111-122.

CHION, Michel. La Audiovisión - Introducción a un análisis conjunto de la imagem y el sonido. Barcelona: Paidós, 1998.

______ . Va voix au cinèma. Paris: Cahiers du cinèma/Editions de l’Etoile, 1982.

______ . La musique au cinèma. Paris: Fayard, 1995.

______ . El sonido: música, cine, literatura.... Barcelona/Buenos Aires/México: Paidós, 1999.

COMOLLI, Jean-Louis. Quelques pistes paradoxales pour passar entre musique et cinèma. In: Voir et pouvoir. Paris: Verdier, 2004.

COSTA, Fernando Morais. As funções do som no cinema clássico narrativo. In: Catálogo O Som no Cinema. Rio de Janeiro, Caixa Cultural. 2008. pp.13-17.

LINS, Consuelo. O ensaio no documentário e a questão da narração em off. In: Catálogo O Som no Cinema. Rio de Janeiro, Caixa Cultural. 2008. pp. 131-14.