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  Título
A verdade da mentira em Cópia fiel, de Abbas Kiarostami
Autor
Genilda Azeredo
Resumo Expandido
A questão da ambiguidade no filme Cópia fielCópia fiel tem origem no próprio título: a que se refere a expressão “cópia fiel”? A resposta mais óbvia diz respeito inicialmente ao livro (intitulado Cópia fiel) do autor James Miller (William Shimell), assunto com que a narrativa fílmica inicia. A questão é desdobrada no discurso que ele profere, com todas as referências à originalidade e autenticidade no contexto artístico, e, em contraponto, à noção de cópia, reprodução, falsidade, mentira. Em determinado momento, a defesa da cópia é respaldada por possibilitar um retorno à origem, de modo a corroborar seu valor. James ressalta que a palavra originalidade e origem partilham a mesma etimologia – daí a articulação entre originalidade e nascimento; daí a relação sempre explorada na relação cópia-original: uma relação que busca as fundações, as fontes, as origens. Um objeto original, ele explica, significa um objeto autêntico, genuíno, confiável, duradouro e que possui um valor intrínseco (Walter Benjamin chama tal valor de aura). Em outro argumento usado pelo escritor no filme, se a cópia é fiel, bem feita, se o olhar de quem olha não vê diferença entre a cópia e o original, então não há razão para se atribuir valor superior a um em detrimento do outro. O olhar atribui verdade ao que vê.

A questão volta à tona, tempos depois, agora através de uma pintura – a Gioconda – que também tem o título de Cópia fiel. Durante cinquenta anos, acreditou-se que o quadro fosse original, mas mesmo depois que a farsa foi descoberta, o quadro continuou atraindo o público, exatamente por sua perfeição, fidelidade e qualidade estética quanto à reprodução. Aliás, é por conta da relação entre o quadro e o livro, que Elle (Juliette Binoche) leva o autor James Miller até o museu; segundo ela, o quadro poderia ter sido uma ilustração apropriada para a capa do livro dele.

Além destes exemplos iniciais, há outros significados que a expressão “cópia fiel” vai incorporando e conotando ao longo da narrativa. Com efeito, o filme desloca, de modo inovador, toda a discussão inicialmente inserida em contexto artístico – originalidade, reprodução – para também falar sobre o que é genuíno e verdadeiro no contexto das relações humanas. E isso é feito de modo tão diferente, com recursos tão indiretos, reveladores e tocantes que o filme continua a reverberar em nós após a expectação. Através dessas observações, queremos propor uma discussão do filme Cópia fiel, levando em conta a articulação entre autenticidade, originalidade, cópia e valor artístico, bem como o rendimento estético que as estratégias de ambiguidade, laconismo e paralelismo possuem na narrativa.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. The work of art in the age of mechanical reproduction. In: Mast, Gerald et al (eds). Film theory and criticism. Oxford: Oxford University Press, 1992.



BERNARDO, Gustavo. O livro da metaficção. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2010.



CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem & outras metas. Ensaios de teoria e crítica literária. São Paulo: Perspectiva, 2004.



FOULCAULT, Michel. A ordem do discurso. Tradução Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 1996.



HUTCHEON, Linda. Narcissistic narrative: the metafictional paradox. London and New York: Routledge, 1980.



JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. Tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1995.



STAM, Robert. O espetáculo interrompido: literatura e cinema de desmistificação. Tradução de José Eduardo Moretzsohn. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.



WAUGH, Patricia. Metafiction. The theory and practice of self-conscious fiction. London and New York: Routledge, 1984.