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  Título
Práticas de leitura fílmica para a educação básica
Autor
Ana Paula Nunes
Resumo Expandido
Apesar das novas gerações crescerem numa cultura em que a imagem se tornou onipresente, o que propicia um domínio técnico da imagem sem precedentes, há ainda pouca reflexão sobre os procedimentos de leitura dessas imagens. Em relação às cinematográficas, Bordwell já afirmou que “educar o olho para ver cinema é um caminho que poucos ousam percorrer em sua amplitude. ‘Ver cinema’ não é fácil” (2008, p.16).

Segundo Jesús Martín-Barbero e Germán Rey, em Os exercícios do ver, a cultura letrada perde força nas instâncias de reprodução do conhecimento, diante do fortalecimento da cultura audiovisual, no entanto, presenciamos o paradoxo da convivência da “explosão contínua de imagens com o empobrecimento da experiência, a multiplicação infinita de signos em uma sociedade que padece do maior déficit simbólico” (2001, p.31). É preciso ensinar a ver, assim como se ensina a ler.

Para Eco, é “através de processos de interpretação que, cognitivamente, construímos mundos, atuais e possíveis” (2008), ressalvando que há interpretações semânticas e interpretações críticas. As primeiras são aquelas em que o destinatário preenche o texto de significado, enquanto através das segundas, procura-se “explicar por quais razões estruturais pode o texto produzir aquelas (ou outras, alternativas) interpretações semânticas” (2008, p.12). Porém, apenas alguns textos permitem ambos os tipos de interpretação, em geral os de função estética. Deste modo, o ato de interpretar criticamente uma obra é decifrar as estratégias de expressão, de produção de efeitos, já é produzir conhecimento.

Portanto, seja através de uma aproximação cognitivista de Bordwell, dos estudos culturais de recepção de Barbero e Rey (assim como de Canclini), ou ainda da semiótica de Eco, estamos sempre encontrando diferentes formas para reafirmar a potencialidade de uma educação do olhar. No entanto, como podemos ler as imagens cinematográficas?

No ambiente acadêmico, o instrumental teórico para a análise fílmica está crescendo e enriquecendo as discussões sobre as práticas de leitura e crítica. Porém, com a crescente penetração do Cinema na escola, potencializada com a primeira licenciatura em Cinema, no Brasil, e uma série de projetos sociais que surgem em todos os espaços da educação (vista como ato contínuo e amplo), precisamos pensar também na presença de práticas de leitura e crítica desde a educação básica. Trata-se do primeiro ponto no documento “Parâmetros Curriculares Nacionais de Arte”, em que se destaca a importância do ensino artístico integrar o tripé: apreciar – contextualizar – produzir.

Mas como aprender a “apreciar” cinema? Quais seriam as melhores estratégias metodológicas para dar conta da complexidade da poética cinematográfica fora do ambiente acadêmico? Neste sentido, esta comunicação visa refletir sobre a análise fílmica em ambiente escolar, partindo de uma pesquisa comparativa entre práticas de leitura fílmica em material pedagógico produzido pelos governos francês e brasileiro.

No caso da França, serão examinados os dossiers criados pelo Centro Nacional da Cinematografia (CNC) – École et cinéma, Collège au cinéma e Lycéens au cinéma, cada um destinado a um nível de escolaridade, favorecendo a “leitura” dos professores e dos estudantes, com informações sobre a obra, sobre o diretor, contextualizando a obra em um corpus de filmes (geralmente a partir de sua estilística), com uma análise detalhada de planos, de sequencias, da mise-en-scène, e com proposições pedagógicas.

No Brasil, será analisado o catálogo da Programadora Brasil, que disponibiliza um acervo panorâmico do cinema brasileiro, acompanhado por críticas cinematográficas, e está inserido na ação Cine Mais Cultura, destinada à favorecer o encontro e a integração do público brasileiro com a sua cinematografia.

Ambas ações são políticas públicas que visam, em linhas gerais, à formação de plateia. Nosso papel é analisar as inciativas do ponto de vista metodológico e não mercadológico.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. A análise do filme. Portugal: Texto e Grafia, 2010.

BARBERO, Jesús Martín; REY, Germán. Os exercícios do ver: hegemonia audiovisual e ficção televisiva. SP: Senac, 2001.

BELLOUR, Raymond. The analysis of film. Edited by Constance Penley. Bloomington: Indiana University Press, 2000.

BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz. Campinas, SP: Papirus, 2008.

______. Making meaning: inference and rhetoric in the interpretation of cinema. Cambridge: Harvard University Press, 1991.

DÉLÉGATION à la communication. L’éducation au cinéma et à l’audiovisuel. France: Ministère Education Nationale, Enseignement Supèrieur Recherche; Direction de l‘enseignement scolaire, 2005.

ECO, U. Obra Aberta: forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas. SP: Perspectiva, 2005.

______. Os limites da Interpretação. 2 ed. SP: Perspectiva, 2004 [1990].

JOLY, M. Introdução à análise da imagem. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2008.

______. A imagem e a sua interpretação. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2000.