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  Título
Tom em recortes: memória e biografia em A música segundo Tom Jobim
Autor
Marcia Regina Carvalho da Silva
Resumo Expandido
A biografia traz a ilusão de um acesso direto ao passado. Diferente do que se propaga pelo senso comum, a ideia de compilar uma (ou várias) vida(s) realizada por um autor, que pode ser impressa no papel ou realizada para cinema, rádio, televisão ou teatro, carrega um caráter hibrido, com diversas abordagens e tendências ao longo da história do gênero, como já investigou, para a escrita biográfica, François Dosse (2009).

O documentário A música segundo Tom Jobim (2011), dirigido por Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, é uma produção concebida para retratar o músico a partir de sua obra musical, sem recorrer a depoimentos, entrevistas ou narração, apostando na compilação de um vasto material de arquivo para apresentar várias performances musicais que interpretam as canções do maestro Antônio Carlos Jobim.

Trata-se, portanto, de uma produção que conta a história de Tom Jobim como músico. O seu retrato é construído através de suas canções como Garota de Ipanema, Águas de março, Corcovado, Dindi, Luiza, Insensatez, entre outras canções consagradas ao Rio de Janeiro, às mulheres e à natureza. Para mostrar a música, o documentário resgata as interpretações e performances de Gal Costa, Elizeth Cardoso, Jean Sablon, Agostinho dos Santos, Pierre Barouh, Alaíde Costa, Henri Salvador, Gary Burton, Silvia Telles, Gerry Mulligan, Ella Fitzgerald, Sammy Davis Jr, Judy Garland, Vinicius de Moraes, Errol Garner, Pat Hervey, Elis Regina, Adriana Calcanhoto, Nara Leão, Maysa, Fernanda Takai, Nana Caymmi, Diana Krall, Oscar Peterson, Sarah Vaughan, Cybele e Cynara, Carlinhos Brown, Jane Monheit, Stacey Kent, Birgit Brüel, Milton Nascimento, Lisa Ono, Paulo Jobim, Miúcha, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Paulinho da Viola, entre outros.

Desse modo, esta comunicação busca examinar a pesquisa musical explorada como recurso narrativo ao analisar a maneira como os diretores se apropriam de vários documentos históricos e artísticos que são as diversas interpretações, versões e regravações das músicas de Tom Jobim, resgatadas de diferentes fontes e arquivos. Com isso, pretendo investigar o estilo e a singularidade deste documentário de colagem que abandona várias pretensões biográficas convencionais, sem explicações marcadas pela oralidade e memória de depoentes, com a escolha de não creditar o nome dos intérpretes ao longo do filme, ou de uma amarração cronológica que articula vida e obra do biografado. O que parece revelar um abandono da ancoragem do “eu”, da apresentação informativa do percurso privado de uma vida, para se focalizar na representação de uma vida artística e musical, ou mesmo, de uma “maneira de viver” cantada pela obra de Tom Jobim.
Bibliografia

CARVALHO, Márcia. Escutas da memória: história da música e retrato do músico no documentário musical brasileiro. In: Actas do III Congreso Internacional de la Asociación Argentina de Estudios de Cine y Audiovisual. Córdoba, 2012.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.

DIDI-HUBERMAN, G. Images malgré tout. Paris: Les Editions de Minuit, 2003.

DOSSE, François. O desafio biográfico: escrever uma vida. Trad. Gilson C. C. de Souza. São Paulo: USP, 2009.

LINS, Consuelo; REZENDE, L. A.; FRANCA, A. A noção de documento e a apropriação de imagens de arquivo no documentário ensaístico contemporâneo. In: Revista Galáxia (PUCSP), São Paulo, n. 21, 2011, p.54-67.

MESQUITA, Cláudia. Retratos em diálogo. In: Novos Estudos Cebrap, n. 86. São Paulo: CEBRAP, março, 2010, p.105-118.