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  Título
Sobre uma matriz estética cinematográfica recorrente
Autor
Maria Helena Braga e Vaz da Costa
Resumo Expandido
Considera-se aqui que o cinema é um meio capaz de produzir novos espaços através da construção de diversas visualidades e espacialidades. Pressupõe-se que uma recorrência estética no que tocam as representações da metrópole advém da influência de uma matriz que se desenvolveu e consolidou no âmbito de um imaginário coletivo construído pela cinematografia americana desde os primórdios da consolidação de sua narrativa clássica. Deve-se então considerar uma “memória recorrente” relacionada a um acervo estético produzido pelo cinema americano clássico em referência à representação imagética da monumentalidade arquitetônica da metrópole, ou nos termos de Soja (2000, 2002), da “postmetropolis” e/ou “exopolis”, para servir como um dos parâmetros de análise.

Sabe-se que o aparato construiu, manteve e reafirmou uma “ordem imagética” e cultural que se constituiu enquanto prática e símbolo da sociedade (urbana) do século XX e continua a influenciar e caracterizar o século XXI. Com o crescente acúmulo de informações e imagens ao longo do século XX, e a ininterrupta produção de outras no século XXI, ampliou-se a visibilidade das formas e características das mais diversas espacialidades e regiões do planeta. Em acordo, os estudos geográficos, por exemplo, interessados no empírico observado, despertaram para a necessidade de considerar uma diversidade de registros imagéticos.

Nesse aspecto, mesmo sendo respeitado o discurso científico em acordo com a lógica do rigor de uma abordagem objetiva e precisa, uma subjetividade aderiu por meio das representações imagéticas, ao projeto de busca pela verdade visual dos fatos e dos lugares. Sejam as fotografias de detalhes de lugares, pinturas panorâmicas das formas de relevo, filmes que retratam hábitos culturais de determinado lugar, toda e qualquer forma imagética passa a ser de interesse à análise técnica e discursiva.

O conceito de modernidade tem sido crucial para a relação cinema/cidade como uma força dinâmica da vida urbana estimulando novas relações com a arte. Cinema, em primeiro lugar, desenvolveu-se dentro da cidade e engajou uma audiência urbana em um lugar de recepção desde a primeira exibição cinematográfica. A experiência urbana foi sempre o principal foco de muitos movimentos e gêneros fílmicos que se desenvolveram durante o século XX e que produziram e criaram uma geografia da experiência do visível nas novas metrópoles que surgiam. Os muitos exemplos demonstram a preocupação com o tema e com o olhar e sugere uma infinidade de relações do engajamento cinemático com o espaço urbano – ver, por exemplo, as questões levantadas por autores como Virilio (1994); Bruno (1997); Clarke (1997); Penz e Thomas (1997); Sarlo (2007); Costa (2005, 2008), McQuire (2008), entre outros.

Pensar sobre o conceito de matriz a partir do estudo das estéticas determinantes para a representação da arquitetura e do espaço urbano no cinema termina por adentrar o espaço da influência exercida pelo cinema americano. Isto porque se pressupõe a existência de uma “recorrência estética” no que toca as representações imagéticas do espaço e da arquitetura no cinema, no brasileiro inclusive, que advém de uma matriz (estética) desenvolvida desde os primórdios da constituição do aparato cinematográfico americano e consolidada por meio da narrativa clássica hollywoodiana. Considera-se que esta matriz tornou-se fonte estética para uma “memória recorrente” que se estabeleceu.

É possível ainda vislumbrar nas vias tomadas hoje pelo cinema contemporâneo não somente uma vaga delimitação de uma possível estética contemporânea como também evidências da necessidade de um instrumental teórico suficientemente abrangente, flexível e multidisciplinar para compreender as novas configurações cinemáticas que surgem. Os estudos culturais, passando por suas versões pós-modernas e pós-estruturalistas, até as visões mais correntes do multiculturalismo são indubitavelmente referências indispensáveis.

Bibliografia

BRUNO, Giuliana. Site-seeing: architecture and the moving image. Wide Angle, v. 19, n.04, 08-24, October 1997.



CLARKE, David. The cinematic city. Londres: Routledge, 1997.



COSTA, Maria Helena B. V. da Cinema e arquitetura: percepção e experiência do espaço. Cidades, Universidade de Presidente Prudente, v.5, n.07, 63-70, 2008.



COSTA, Maria Helena B. V. Geografia cultural e cinema: práticas, teorias e métodos (43-78). In Rosendahl, Zeny e Corrêa, Roberto Lobato (orgs.) Geografia: temas sobre cultura e espaço. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2005.



MCQUIRE, Scott. The media city: media, architecture and urban space. Los Angeles: Sage Publications, 2008.



PENZ, François and Thomas, Maureen (editors). Cinema & Architecture: Méliès, Mallet-Stevens, Multimedia. London: BFI, 1997.



SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.



SOJA, Edward. Postmetropolis: critical studies of cities and regions. Malden: Blackwell Publications, 2000.