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  Título
Divergência e conciliação: cinema e memória da luta armada no Brasil
Autor
Fernando Seliprandy Fernandes
Resumo Expandido
O melodrama histórico O que é isso, companheiro? (Bruno Barreto, 1997) e o documentário Hércules 56 (Silvio Da-Rin, 2006) adotam gêneros cinematográficos distintos para representar uma das mais importantes ações da luta armada durante o regime autoritário no Brasil (1964-1985): o sequestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick, promovido por MR-8 e ALN em 1969. Produzidos em tempos democráticos, os filmes têm o testemunho como matriz de suas imagens, e a tensão entre os gêneros já sugere, em si, uma disputa em torno da fidedignidade da memória. Adaptação do relato pessoal homônimo de Fernando Gabeira publicado em 1979, O que é isso, companheiro? mobiliza o modo melodramático hollywoodiano em uma encenação do acontecimento que vilaniza a guerrilha, distribui inocências aos sujeitos sociais e redime os torturadores. Nessa imagem desculpadora da memória, o passado é moralmente julgado como um lapso aberrante superado na década de 1990, quando governava a ordem (neo)liberal. Em resposta, Hércules 56 reúne os protagonistas da ação e os presos políticos libertados em troca do diplomata em uma montagem de entrevistas e imagens de arquivo cuja coesão tende a instituir a totalidade narrativa do sequestro e a unidade teleológica da luta armada em geral. Inclinado ao tom da celebração, o documentário realinha os sentidos dos atos passados, enquadrando-os na trilha do longo percurso rumo ao triunfo democrático-institucional do PT nos anos 2000. Presta, assim, justíssima homenagem à militância pretérita, mas acaba neutralizando o dissenso crítico e transformando a luta incisiva em relíquia de um tempo extinto. Embora essencialmente antagônicas em termos estéticos e ideológicos, a memória desculpação e a memória monumentalizante elegem de forma paralela as respectivas conjunturas de produção dos filmes como ápices do devir histórico, sem discordar significativamente acerca das bases concretas da “conciliação” democrática brasileira. “Encerrada” aquela história, o embate fica circunscrito ao âmbito das representações cinematográficas da memória, restando intocada a real permanência da impunidade das violações dos direitos humanos no Brasil.
Bibliografia

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CARDOSO, Irene. História, memória e crítica do presente. In: ______. "Para uma crítica do presente." São Paulo: Editora 34, 2001. p. 15-40.

DA-RIN, Silvio. Espelho partido: tradição e transformação do documentário. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2006.

REIS FILHO, Daniel Aarão; RIDENTI, Marcelo; MOTTA, Rodrigo Patto Sá (org.). O golpe e a ditadura militar: quarenta anos depois (1964-2004). Bauru: Edusc, 2004.

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SELIPRANDY, Fernando. Imagens divergentes, 'conciliação' histórica: memória, melodrama e documentário nos filmes O que é isso, companheiro? e Hércules 56. 2012. 230 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo, São Paulo.