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  Título
A sedução pelos testemunhos nos documentários gaúchos (1995-2010)
Autor
Cássio dos Santos Tomaim
Resumo Expandido
Seguindo o alerta de Robert Rosenstone de que “o documentário nunca é uma ‘aula de história’ neutra, mas uma habilidosa obra que deve ser interpretada pelo espectador com o mesmo cuidado dedicado à interpretação de um filme dramático” (2010, p.112), procuro problematizar as implicações dos usos dos testemunhos/depoimentos para a representação do passado nos documentários produzidos no Rio Grande do Sul entre os anos de 1995 a 2010. Em uma pesquisa recente foi possível mapear 96 documentários realizados neste período no Rio Grande do Sul, entre curtas, médias e longas-metragens. Para uma melhor compreensão dos aspectos éticos e estéticos desta produção foi desenvolvida uma Ficha Analítica com base em autores como Bill Nichols e Fernão Ramos, tendo como duas grandes categorias analíticas: linguagem e narrativa; e a ética da representação.

Aplicada a ficha em uma amostra desta produção, que correspondeu a um corpus de 22 filmes que acreditamos refletir a diversidade do cinema documentário gaúcho contemporâneo, pode se constatar a predominância do modo expositivo como forma de representação, o que sugere à produção não-ficcional do Rio Grande do Sul uma atitude mais objetiva em retratar o mundo. Entretanto, isto nos levou a outro diagnóstico. Em busca de um maior rigor no método, a maioria destes filmes apresenta uma dependência nos testemunhos, que favorece ao cineasta uma atitude na tomada da cena no nível da ocultação, uma postura recuada do sujeito-da-câmera satisfazendo uma ética da imparcialidade na forma de representar a realidade. Há casos de documentários em que a ocultação é levada ao extremo, negando-se a qualquer interação com o mundo. Em defesa de um tratamento mais objetivo da realidade, a fala do mundo deve prevalecer como uma enunciação assertiva oferecida à contemplação e ao julgamento do espectador. Apostam no valor indicial das imagens e sons com o mundo representado que, por sua vez, “criam” a ilusão de um transcorrer banal do cotidiano. Há filmes que preferem apostar exclusivamente em uma montagem de evidências muito centrada na justaposição de depoimentos, intercalados entre si ora por assuntos comuns ora por palavras-chaves.

Por sua vez, isto nos leva a questionar a dependência destes filmes à entrevista, quais as conseqüências desta confiança excessiva dos realizadores nos depoimentos/testemunhos dos personagens sociais, já que o documentário ao guiar-se pelo artifício da simples entrevista limita-se a obter, muitas vezes, somente o que a pergunta do diretor pode motivar. O que se torna ainda mais problematizador se levarmos em consideração que a maioria dos documentários analisados aposta em um possível compromisso afetivo dos espectadores com as situações concretas de seus personagens. Para o historiador alemão Alexander von Plato (2011), um dos principais perigos relacionados à inserção dos testemunhos em documentários é apresentá-los como se fossem a última palavra sobre o acontecimento, quando na verdade os entrevistados somente apresentam suposições.

Acrescenta-se a isto a subordinação do testemunho a uma “estética da interrupção” oriunda da televisão, em especial do telejornalismo, em que o ritmo se sobrepõe à imagem priorizando um discurso descontínuo em que o fragmento prevalece em detrimento da unidade (BALOGH, 2002). Neste sentido, concordo com Seligmann-Silva, é preciso escapar do perigo de reduzir o testemunho ao seu paradigma visual, mas compreendê-lo na tríade que o define: a visão, a oralidade narrativa e a capacidade de julgar (2010, p.05). Tríade que também se aplica ao documentário, ao assumirmos que o testemunho não nos interessa somente como ato de fala, de quem diz algo. Mas devem ser problematizados, levando em consideração que em um documentário os personagens quando rememoram exercem um julgamento em relação tanto ao passado quanto ao presente.
Bibliografia

BALOGH, Anna Maria. O discurso ficcional na TV. São Paulo: Edusp, 2002.

BENJAMIN, Walter. O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Obras escolhidas I. Magia e técnica, arte e política. v.1. São Paulo: Brasiliense, 1987, p.197-221.

BERNARDET, Jean-Claude (1985). Cineastas e imagens do povo. 2ª edição. São Paulo: Cia das Letras, 2003.

NICHOLS, Bill. Introdução do documentário. Campinas, SP: Papirus, 2005.

RAMOS, Fernão. Mas afinal... O que é mesmo documentário? São Paulo: Editora Senac, 2008.

ROSENSTONE, Robert A. A história nos filmes. Os filmes na história. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. O local do testemunho. Tempo e Argumento. Revista do Programa de Pós-Graduação em História, UDESC, Florianópolis (SC), v. 2, n. 1, p.3-20, jan./jun. 2010.

VON PLATO, Alexander (2011). Mídia e memória: apresentação e “uso’ de testemunhos em som e imagem. Revista Brasileira de História, v.31, n.61, jun. 2011, p.211-229.