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  Título
Historiografia do cinema: Argentina e Brasil na década de 1930
Autor
Arthur Autran Franco de Sá Neto
Resumo Expandido
A proposta dessa comunicação é relativa à comparação e à análise dos discursos historiográficos empreendidos por pesquisadores argentinos e brasileiros a respeito da trajetória na década de 1930 das suas respectivas cinematografias.

De um lado é preciso notar que na Argentina, a historiografia clássica do cinema indica o período que vai de 1933 até 1942 como “la época de oro” – como aponta o título da parte referente a este interregno no livro fundador da historiografia daquele país, escrito pelo crítico Domingo di Núbila (1960). Isso porque o período 1933-1942 viu surgir o aparecimento dos estúdios Argentina Sono Films e Lumiton, dentre outros; de um star system com artistas como Luis Sandrini, Libertad Lamarque e Tita Merello; de diretores como Manuel Romero, Luis Saslavsky e Mario Soffici; além do consistente avanço do produto nacional no mercado interno e no mercado latino-americano.

Muito outra foi a situação brasileira ao longo dos anos 1930 e até o final da II Guerra Mundial, cujas experiências industriais tais como a Cinédia e a Brasil Vita Film fracassaram em termos econômicos, e com um quadro caracterizado pela pequena produção de filmes de ficção e a manutenção da atividade por meio da produção de curtas-metragens e cine-jornais que eram exibidos de forma compulsória por meio da lei 21.240 de 1932. Essa situação levou Alex Viany, na sua obra fundadora Introdução ao cinema brasileiro, a considerar que, após o advento do som, o cinema brasileiro seria como “um rapazinho inteligente que, exatamente ao atingir a maioridade, levara um tombo e voltara ao tatibitate” (VIANY, 1959, p.100).

Apesar da diferença entre a situação concreta da produção de ambos os países no período, do tom do discurso historiográfico acerca dele, bem como da própria dedicação dos historiadores – pois na Argentina a década de 1930 até hoje é bastante discutida enquanto no Brasil só recentemente houve novas análises –, há também dados comuns no discurso historiográfico: a inspiração no modelo ditado por Georges Sadoul, a teleologia, a centralidade da produção em detrimento de outras áreas, a constituição do cânone artístico, etc.

Além de historiadores ditos clássicos como os argentinos Domingo di Núbila, César Maranghello e Claudio España ou os brasileiros Alex Viany, Paulo Emílio Salles Gomes e B. J. Duarte, interessa-me também comparar a produção historiográfica mais recente, a qual problematiza os textos clássicos e propõe novas formas de abordagem da história do cinema naquele período, como é o caso de Ana Laura Lusnich e Clara Kriger na Argentina ou José Inácio de Melo Souza e Rafael de Luna Freire no Brasil, bem como os únicos autores a terem trabalhado em chave comparativa as historiografias do período, Paulo Antônio Paranaguá e Silvia Oroz. Para além da mais do que necessária visão crítica em relação aos textos do passado, o que compreende a contribuição inegável dos trabalhos fundadores, as pesquisas mais recentes destacam o papel do Estado, a importância de códigos culturais tradicionais ligados ao nacionalismo na ideologia dos filmes, a questão dos gêneros cinematográficos e a análise do setor de exibição. Cabe verificar também as linhas de continuidade entre os autores clássicos e os contemporâneos.

Finalmente, essa proposta pretende ainda indicar eventuais lacunas historiográficas, de maneira a indicar campos que podem ser desenvolvidos por pesquisadores de ambos os países. Neste sentido, avultam questões binacionais, tais como: as co-produções – cujo primeiro caso talvez seja a película de 1926 intitulada La mujer de medianoche ou A esposa do solteiro, de Carlo Campogalliani –, a atuação de profissionais que trabalharam na Argentina e depois se transferiram para o Brasil – como o diretor Carlos Hugo Christensen – ou a atuação de gente do Brasil no país vizinho – o diretor Oduvaldo Viana dirigiu fitas na Argentina nos anos 1930 –, bem como a exibição e a repercussão crítica de filmes argentinos no Brasil e vice-versa.
Bibliografia

GOMES, Paulo Emílio Salles. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

KRIGER, Clara. Cine y peronismo – el Estado en escena. Buenos Aires: Siglo Veintiuno, 2009.

LUSNICH, Ana Laura. El drama social-folclórico – el universo rural en el cine argentino. Buenos Aires: Biblos, 2007.

MARANGHELLO, César. Breve historia del cine argentino. Barcelona: Laertes, 2005.

NÚBILA, Domingo di. Historia del cine argentino. Olivos: Cruz de Malta, 1960.

OROZ, Silvia. Melodrama: o cinema de lágrimas da América Latina. 2ª ed. Rio de Janeiro: Funarte, 1999.

PARANAGUÁ, Paulo Antônio. Le cinéma em Amérique Latine: le miroir éclaté. Paris: L´Harmattan, 2000.

SADOUL, Georges. História do cinema mundial. São Paulo: Martins, 1963.

SOUZA, José Inácio de Melo. O Estado contra os meios de comunicação (1889-1945). São Paulo: Annablume / Fapesp, 2003.

VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1959.