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  Título
Eu era feliz e não sabia: o rural no cinema brasileiro dos anos 2000
Autor
Celia Aparecida Ferreira Tolentino
Resumo Expandido
No filme Estrada da vida (1980, dir: Nelson Pereira dos Santos), o cantor personagem José Rico imprecava enfaticamente contra o dono de um circo que o chamava de caipira, afirmando: “caipira pode ser você e seu pai!” Segundo a perspectiva divertida do filme, a dupla Milionário e José Rico era o resultado típico da nossa modernização milagrosa com suas imensas, pobres e recém urbanizadas periferias metropolitanas, mas já não seriam mais rurais, ainda que não pudessem ser chamados exatamente de urbanos. O filme teve um imenso êxito nas bilheterias, assim como o seu correlato dos anos 2000, o 2 filhos de Francisco (2005, dir: Breno Silveira), que voltaria a trazer para as telas dois cantores de sucesso da chamada música sertaneja. Mas, ao contrário de José Rico, que renegava a origem rural pobre, o cantor/ator Zezé di Camargo afirmaria que apesar da pobreza, da miséria e marginalização da vida no campo na condição de agregados, era daquele tempo que tinha as suas melhores lembranças. Fazendo este paralelo entre os dois cantores de sucesso na condição de personagens do cinema, nossa análise pergunta: o que aconteceu neste interregno para que passássemos, na perspectiva da representação cinematográfica, da rejeição à louvação do mundo rural? Nossa hipótese é a de que, segundo nossa cinematografia dos anos da última década, o rural é o irremediavelmente perdido, do qual só resta sentir saudades. Mas, saudades do que se olhando do tempo de sucesso para o passado da família 2 filhos de Francisco terminaria por afirmar que um homem pobre rural tinha poucas perspectivas, além engrossar as filas do subemprego, da pobreza e da miséria nas franjas da cidade grande? Seria o sentido proposto por Central do Brasil (1998, dir. Walter Salles Júnior), cuja tese é a de que o rural pobre ainda poderia dar alguma redenção à degradação moral, social e cultural, produzida pela nossa urbanização agressiva, discriminatória e violenta?

Outros filmes emblemáticos deste período retomariam o rural como memória, particularmente do cangaço e do sertão nordestino. Um tipo de filão que adentrou pelos finais desta década e início dos anos 2000, fazendo sucesso junto aos espectadores como dão notícias Baile perfumado (1996, dir. Paulo Caldas e Lírio Ferreira), Corisco e Dadá (1996, dir. Rosenberg Cariry), O auto da compadecida (2000, dir. Guel Arraes), Lisbela e o prisioneiro (2003, dir. Guel Arraes), Eu, tu, eles (2000, dir. Andrucha Waddington) O caminho das nuvens (2003, dir. Vicente Amorim), Abril despedaçado (2001, dir. Walter Salles) só para citar o que tiveram maior repercussão junto ao público nacional. Poucas obras exploraram o rural poderoso e os seus sucessos e conflitos como em Jenipapo (1996, Monique Gardenberg), ou o mundo cultural circunstante à agroindústria, como Buena sorte (1997, dir. Tânia Lamarca).

Retomando o personagem do homem pobre rural, o bem humorado Tapete vermelho (2006, Luís Alberto Pereira) reforçaria a tese de que o rural é saudade, "causo", história passada e o movimento pela terra a medida de como se deve e se pode viver como pobre rural nos tempos de hoje, isto é, em luta. Mas, o rural mobilizado, salvo em Jenipapo e na versão um tanto chistosa de Tapete vermelho, não é temática que encante o cinema comercial; este, mais frequente na forma do documentário, tem outra origem e outro público. Talvez pudéssemos dizer que no emblemático Narradores de Javé (2004, dir. Eliane Caffé) existam algumas pistas da questão que estamos propondo: o rural parece ser belo nas memórias, mas não se pode falar dele da mesma forma na história e no tempo presente, pois acaba sempre considerado mais sincero na condição de simulacro, de memória imagética herdada da iconografia popular, do cinema e da televisão, que tenta assumir cada dia mais a verdade sobre nós mesmos.
Bibliografia

BENTES, Ivana. The sertão and the favela in contemporary Brazilian Film. In: NAGIB, Lúcia (Org.). The new brazilian cinema. New York: the centre for brazilian studies, University of Oxford, 2003.



NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: o depoimento de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002.



ORICCHIO, Luiz Zanin. Cinema de novo. Um balanço crítico da retomada. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.



PAPA, Dolores. (Org.) Nelson Pereira dos Santos – uma cinebiografia do Brasil. Rio de Janeiro: Onze do Sete, 2005.



PEREIRA, Odirlei Dias e TOLENTINO, Célia. Estrada da vida e Dois filhos de Francisco na revista Sinopse, n. 11, ano VIII, setembro de 2006, p. 84 a 96.



TOLENTINO, Célia A. F. O rural no cinema brasileiro, São Paulo, Ed. da UNESP, 2001.



XAVIER, Ismail. O olhar e a cena. São Paulo: Cosac & Naify, 2003