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  Título
João Batista de Andrade: a dramatização, o corpo e a encenação do real
Autor
Gilberto Alexandre Sobrinho
Resumo Expandido
Trata-se do estudo do estilo de João Batista de Andrade, uma das últimas etapas da pesquisa intitulada Artesãos na indústria: estudo sobre programas Globo Shell Especial e Globo Repórter (1971-1982).

A trajetória cinematográfica de João Batista de Andrade inicia em 1963, na Escola Politécnica, da Universidade de São Paulo, em que compõe o Grupo Kuatro, juntamente com Francisco Ramalho Jr.. O convívio com profissionais ligados à chamada Caravana Farkas, tais como Maurice Capovilla, Sidney Paiva Lopes e João Silvério Trevisan, possivelmente fez diferença nesse período de formação. Com Liberdade de imprensa (1966), um de seus primeiros filmes, define-se uma linha de força em seu trabalho e que irá marcar seu estilo de realizar documentários: o enfrentamento com a realidade brasileira mediante a adoção de um método singular. Desta forma, João Batista é um realizador de vanguarda, que assume uma poética marcada pelo tom denso da autoconsciência da linguagem. Da produção independente de filmes documentários, João Batista passa a realizar trabalhos para a TV Cultura, no programa Hora da Notícia, juntamente com Vladimir Herzog e Fernando Pacheco Jordão. Nesse momento, desenvolve-se um tipo de relação transformadora entre a câmera e o outro, já que João Batista aperfeiçoa um procedimento relativamente simples, no entanto profundamente perturbador: interessa-se cada vez mais pela imagem e pela voz de sujeitos (homens e mulheres) que sempre foram silenciados ou que recebiam um tratamento tutelado (Bernardet, 2002). Surge, assim, a proposta do chamado «cinema de intervenção» e Migrantes (1969) é um marco dessa abordagem que privilegia os vários pontos de vista sobre o fato narrado. Na década de 1970, João Batista esteve à frente do núcleo de reportagens que, juntamente com a Blimp Filmes, respondia pela programação paulista para o Globo Repórter. Nesse período, o processo de narração desenvolvido por João Batista, além de adensar o corpo a corpo com o real, incorpora expedientes de dramatização, na realização documentária, enriquecendo-se, assim, dessa abordagem. Nos documentários Caso Norte (1977) e Wilsinho da Galiléia (1978) são acionados procedimentos de composição brechtiniana, para a dramatização de eventos retirados diretamente das páginas policiais. As relações entre violência e o quadro social apresentado dão o tom do processo narrativo. Cinema e televisão estão no horizonte do olhar documentarista do diretor. O uso de suporte 16mm, as equipes reduzidíssimas, a produção independente, os embates com a produção institucionalizada da televisão são expedientes que aparecem e que serão ativados para compreensão do conjunto dos documentários do diretor. A partir do exposto, mesmo brevemente, temos a hipótese de que surge um estilo que se define pela expansão da corporalidade do real e pelos investimentos da dramatização que adensam as tensões do encontro da câmera e o contingente.
Bibliografia

ANDRADE, J.B.A. O povo fala: um cineasta na área de jornalismo da TV brasileira. São Paulo: SENAC, 2002.

ANDRADE, J.B.A. Uma trajetória particular. Estudos Avançados. Vol.16, n.46, São Paulo, set/dez 2002.

BERNARDET, J.C. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

CAETANO, M.R.C. Alguma solidão e muitas histórias: um cineasta em busca da urgência e da reflexão. São Paulo: Imesp, 2004.

CATÁLOGO CCBB-SP. Diretores Brasileiros: João Batista de Andrade – o cinema e a construção de contra-história. São Paulo, 2002.

FORTES, R.A.P. A obra documentária de João Batista de Andrade. Campinas, SP: 2007.