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  Título
A música diegética no cinema de ficção científica norte-americano
Autor
Fabrizio Di Sarno
Resumo Expandido
O cinema de ficção científica não busca necessariamente estabelecer um panorama pretensiosamente realista sobre um determinado período do tempo e do espaço. Ao invés disso, busca asseverar um contato direto com a ideia de futuro presente no imaginário do público de uma determinada época. Via de regra, esta ideia de futuro parte sempre da relação entre o desenvolvimento da própria cultura humana e o seu impacto na vida cotidiana. Com efeito, apesar dos relatos sobre a visita de homens vindos do espaço emergirem desde a época da antiga civilização suméria, os aparatos mecanizados, incluindo o veículo espacial conhecido como “disco-voador”, só constam nos relatos feitos após a segunda revolução industrial, período em que o homem passou a conhecer a mecanização em sua própria cultura. No caso da ficção científica cinematográfica, este diálogo com o imaginário do público é seriamente amplificado pela exploração das características audiovisuais em narrativas que evocam os prováveis impactos futuros do desenvolvimento tecnológico atual. De fato, as narrativas dos filmes do gênero acompanham de perto as evoluções tecnológicas e as novas descobertas nas áreas da física, química, biologia, astronomia etc.

No contexto audiovisual do gênero cinematográfico, a música tem um papel fundamental e pode ser considerada como um dos elementos importantes na composição do gênero.

Nos dias de hoje, a música extra-diegética dos filmes de ficção científica no mainstream do cinema norte-americano permanece, como no início do cinema sonoro, utilizando um idioma erudito, com características harmônicas e melódicas semelhantes àquelas encontradas na música programática do século XIX. Em muitas oportunidades esta música é executada por grandes conjuntos orquestrais, como no caso dos filmes da saga Guerra nas Estrelas (Star Wars, George Lucas, 1977, 1980, 1983, 1999, 2002, 2005). Contudo, também são numerosos os exemplos de músicas mais intimistas executadas por pequenos grupos de câmera ou apenas pelo piano, como no caso do filme Lunar (Moon, Duncan Jones, 2009). Apesar da ampla utilização de sintetizadores e baterias eletrônicas, a estética musical permanece voltada para um período histórico em que a melodia permanecia linear e a harmonia ainda não havia sido desintegrada, como ocorreu em boa parte da música erudita após a virada do século XIX para o século XX. Esta escolha, quase unânime, se mostra coerente com o cinema comercial pelo modo como esta música, de mais fácil aceitação e comunicação, é capaz de se relacionar com o sentimento do público. Porém, existem alguns exemplos que caminham no outro sentido, como é o caso da música minimalista e por vezes atonal de Tom Pierson no filme O Quinteto (Quintet, Robert Altman, 1979).

No caso da música diegética, não é possível estabelecer um padrão coeso para os filmes de ficção científica, já que cada compositor procura configurar, de forma mais ou menos realista, como seria a música praticada por uma determinada cultura, dentro de um determinado período de tempo. É evidente que fatores como o grau de desenvolvimento tecnológico e a quantidade de tempo que nos separa desta suposta cultura são importantes neste contexto. Contudo, até mesmo os elementos audiovisuais que asseguram uma determinada coerência interna podem ser considerados como fatores de menor relevância quando comparados com o diálogo com o imaginário do público da época da produção do filme. O equilíbrio entre a coerência interna e a relação intensa com o imaginário do público deve ser balanceado cuidadosamente no perigoso momento da execução da música diegética na ficção científica, de modo que um passo demasiadamente grande para um dos lados pode transformar esta execução em um desastre estético. Não é de se espantar que a execução de uma música diegética em um ambiente futurista é evitada ao máximo pelos filmes do gênero, deixando aos pesquisadores da área uns poucos e corajosos exemplos para o estudo.

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