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  Título
Montagem e trabalho sonoro do filme Cenas Urbanas - Espaço do Cidadão
Autor
Afonso Claudio Segundo de Figueiredo
Coautor
Katia Augusta Maciel
Resumo Expandido
O filme Cenas Urbanas, Espaço do Cidadão foi criado por uma equipe interdisciplinar da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte do projeto de pesquisa e extensão “Cenas Urbanas, Espaço Público e Cidadania”, coordenado pela profª Katia A. Maciel, e apoiado pelo MEC-SESu (PROEXT). O projeto incluiu elaborar roteiros e realizar cinco documentários de curta-metragem, para exibição em escolas públicas de ensino médio, na internet e em festivais de cinema. O artigo examina a experiência dos autores em realizar o filme Espaço do Cidadão, o primeiro da série, aqui tomado como estudo de caso. O filme trata em linguagem audiovisual de conceitos da geografia humana como espaço, lugar e visibilidade, por exemplo. Para isso, o principal elemento estético e narrativo adotado é a “câmera-cidadã”. Uma câmera subjetiva que assume o lugar do cidadão e circula pela cidade de carro, van ou bicicleta, transita por passarelas, atravessa ruas, senta num banco de praça e, acima de tudo, interage com a cidade do ponto de vista de alguém que se coloca nos espaços públicos. A montagem se utiliza de raccords pelo movimento seja da câmera ou de algo que passa em frente da lente. O objetivo é tanto construir a impressão de que a “câmera-cidadã” corporifica, até certo ponto, a experiência de estar no espaço urbano, quanto chamar a atenção para aspectos da vida cotidiana que normalmente passam despercebidos. As ideias de montagem do filme portanto retrabalham, em novo contexto, o olhar construtivista da câmera-olho de Dziga Vertov.Em termos de som, o artigo analisa estratégias adotadas para garantir a clareza na narrativa sonora, referente aos ambientes e suas particularidades. A base do trabalho de foley são as idéias de Walter Murch e Tomlinson Holman que defendem que tudo o que é visto na tela deve ser ouvido e que, quando há sons demais competindo uns com os outros, cada som gravado que precise ser ouvido deve ser enfatizado.Seguindo essas ideias, o trabalho de foley em Espaço do Cidadão foi criado na pós-produção, a partir de uma seleção de cenas nas quais o áudio do ambiente não reproduzia com fidelidade os locais filmados. Essa ambientação, quando ausente, desloca o espectador do objeto imagético. Por isso, o foley foi fundamental para corrigir sonoramente os ambientes para que pudessem ser reconhecidos e percebidos como de fato são. Já a criação da trilha musical partiu da leitura do roteiro, como sugere David Sonnenschein. Essa leitura levou à composição de dois temas principais, um lento em tom maior e outro em andamento mais rápido em tons menores paralelos. Esses temas foram posteriormente regravados com arranjos mais elaborados com instrumentações variadas inspiradas nos primeiros cortes do filme. Porém, ao longo da montagem o filme adquiriu uma linguagem mais dinâmica com cortes mais rápidos e a subtração de trechos longos, que tornou a trilha inadequada. Foi então criado outro tema, esse sem elementos melódicos marcantes mas com uma pulsação forte e repleto de elementos rítmicos que se fundem com as imagens e os cortes. Considera-se que através do conjunto desses recursos visuais e sonoros da linguagem audiovisual adotada, o filme recria espaços urbanos públicos como pastiche, no sentido proposto por Richard Dyer, em que pastiche é compreendido enquanto escolha estética e metodológica que gera significado. Desse modo, argumenta-se que os recursos de fotografia, montagem e som no filme contribuem para provocar debates sobre como cenas cotidianas em espaços públicos da cidade do Rio de Janeiro atuam tanto na construção, como na problematização e na comunicação de uma sociedade urbana democrática.
Bibliografia

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