/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
O papel das escolas na renovação do cinema argentino
Autor
Gabriela Morena de Mello Chaves
Resumo Expandido
A renovação pela qual o cinema argentino tem passado desde a última década está ancorada numa série de transformações que devem ser analisadas para a compreensão deste processo histórico. A ampliação e renovação dos espaços de formação de profissionais da cadeia do cinema iniciada na década de 1990 é parte fundamental deste conjunto de mudanças (MOGUILLANSKY, 2011). Em 1989 foi criado o curso de Desenho de Imagem e Som na Universidade de Buenos Aires, em 1991 fundada a Universidad del Cine (FUC), e nos anos seguintes, foram revistos e atualizados os currículos e grades dos cursos oferecidos pela Escuela Nacional de Experimentación y Realización Cinematográfica (ENERC), ligada ao INCAA. Estes espaços oxigenavam a classe produtora num momento em que o público e a crítica clamavam por novos projetos, novos formatos e novas estéticas.

A nova geração, então, empenhou-se em produzir com qualidade. Divididos em duas correntes, a primeira caracteriza-se por filmes de caráter mais “industrial”, exibidos no grande circuito e que contam com a produção dos principais conglomerados da comunicação, como Artear-Clarín, Telefé, Pol-ka e Cuatro Cabezas. A segunda corrente utiliza um tom intimista e autoral, conta histórias cotidianas que revelam o diagnóstico de uma Argentina em crise, mas resistente. São produzidos a baixo custo, na maioria dos casos contam com o apoio dos fundos disponibilizados por fundações e festivais e, em alguns casos, com o aporte dos próprios realizadores e equipe técnica. Os filmes desta segunda corrente são os principais responsáveis pela grande renovação estética do cinema argentino (AMATRIAIN, 2009), dentre eles destacam-se Mundo Grua (Pablo Trapero, 1999) e La Ciénaga (Lucrecia Martel, 2001). O primeiro foi premiado na primeira edição do BAFICI – Buenos Aires Festival Internacional de Cinema Independente –, e chamou a atenção do mundo para o novo cinema argentino, “seu êxito internacional foi a carta de apresentação que legitimou o Nuevo Cine Argentino no mundo” (OUBIÑA, 2009: p.20). O segundo foi premiado em Berlim e recebido com prestígio em outras capitais europeias, incluindo Paris, e confirmou o mérito de uma geração que vem obtendo reconhecimento e ganhando visibilidade.

A crítica nacional, por sua vez, esteve receptiva e favorável à renovação que o cinema apresentava. As muitas produções literárias sobre o Nuevo Cine Argentino demonstram o entusiasmo com o qual eram recebidos os filmes. Não são raros títulos como “Un nuevo cine para una nueva Argentina”. Logo no início da década de 2000 a revista El Amante, importante publicação voltada para o cinema, apresentava em sua reportagem de capa as diferenças entre o velho e o novo cinema que se fazia no país, qualificando-os: “Cine argentino. Lo malo / Lo bueno” (OUBIÑA, 2009).

Em parte, este forte vínculo entre produção e crítica é explicado pelas novas escolas de cinema do país. Espaços próprios para a construção de um pensamento crítico-analítico, as escolas constituíram importantes arenas de debate que contribuíram para o desenvolvimento da atividade e para o amadurecimento de uma classe cinematográfica. Eduardo Russo, Ignacio Amatriain, Máximo Eseverri, David Oubiña, são alguns dos muitos críticos que fazem parte da esfera acadêmica. Ali profissionais de uma e outra área de atuação (produção e crítica) levantam questionamentos comuns, participam de debates, reúnem-se para pensar e fazer, discutir e contribuir, cada um a seu modo, com este novo cinema nacional (TORRE e ZARLENGA, 2009). No prólogo do livro Poéticas en el cine argentino: 1995-2005 Ramiro Ortiz defende que o Nuevo Cine Argentino trouxe também uma revitalização para o campo da reflexão: “desde meados da década de 90, se escreve cada vez mais sobre cinema argentino. A proliferação de universidades dedicadas ao tema, o surgimento de festivais, cineclubes e publicações em geral, são parte deste fenômeno” (ORTIZ, 2005).



Bibliografia

AMATRIAIN, Ignacio. Una década de nuevo cine argentino (1995-2005). Industria, crítica, formación y estéticas. Buenos Aires: CICCUS, 2009.



GETINO, Otavio. El cine en el Mercosur y paises asociados. In: Cine iberoamericano: los desafios del nuevo siglo. Costa Rica/Cuba: Veritas/Fundación Del Nuevo Cine Latinoamericano, 2005.



MOGUILLANSKY, Marina. Pantallas del Sur: La integración cinematográfica en el Mercosur. 2011. 209 f. Tese (Doutorado) – Facultad de Ciencias Sociales, Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires, 2011.



MOLFETTA, Andrea. Cinema argentino: a representação reativada (1990-2007). In: BAPTISTA, Mauro e MASCARELLO, Fernando (orgs.). Cinema mundial contemporâneo. Campinas: Papirus, 2008.



ORTIZ, Ramiro. Asuntos Argentinos. In: PAULINELLI, María (coord.). Poéticas en el cine argentine: 1995-2005. Córdoba: Comunicarte, 2002.



OUBIÑA, David. La vocación de alteridad. In: PENA, Jaime. Historias extraordinárias – Nuevo cine argentino 1999-2008. Madrid: T&B Editores, 2009.