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  Título
“Renovar ou morrer”: O bandido da luz vermelha em O Diário de S. Paulo
Autor
Isabella Mitiko Ikawa Bellinger
Resumo Expandido
Em três de dezembro de 1968 a seção de cinema de "O Diário de S. Paulo" publica um anúncio sobre a estreia de O bandido da luz vermelha (Rogerio Sganzerla, 1968). Destaca-se da propaganda ao filme: "Abaixo o conformismo; Rogerio representa uma nova perspectiva, uma nova abertura dentro do cinema brasileiro. Destacamos este filme, pois sabemos que nele iremos achar novos caminhos dentro da renovação proposta por um cinema independente”. (Anúncio, O Diário de S. Paulo. São Paulo, 3/12/68. Caderno 2, p.8).

Evidencia-se a urgência de uma nova perspectiva para o cinema brasileiro. Os críticos de cinema do jornal no período eram estudantes da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Álvaro Ferreira, Claudio de Andrade (pseudônimo inicialmente utilizado por Jean-Claude Bernardet), Djalma Batista, Eduardo Leone, Frida, Ismail Xavier, José Possi Neto, Marília Aires (hoje Marília Franco), Maurice Politi, Sérvulo Peres Siqueira e Valéria de Andrade se alternaram durante um ano (entre julho de 1968 e junho de 1969), escrevendo textos de cinema em "O Diário de S. Paulo".

O bandido da luz vermelha marca a divisão entre os dois momentos da crítica desses alunos no jornal: se até novembro de 1968 defendiam o cinema de autor e condenavam filmes realizados em moldes industriais, adotando uma postura militante estudantil de esquerda, após o filme de Sganzerla essa defesa dará lugar à necessidade de renovação da linguagem cinematográfica, como se nota em “Saudadejásefoi”, de Eduardo Leone:

"Eu vejo você no cinema e da tela sai o basta. ENQUANTO ISSO OS SUPERADOS FICARÃO FAZENDO COMPENDIOS DAQUILO QUE ELES NÃO ENTENDEM ESCREVO FALO PELAS LINHAS DO CARTAZ E ME VEJO NO ESPELHO DA TV. A CIDADE FUNDIU OS PARADIGMAS E SE LIBERTOU NA FRAGMENTAÇÃO; ESTOU DENTRO DO FILME. [...] RENOVAR OU SUPERAR OU ‘MATAR OU MORRER’. Caminhando pela metrópole TUDO E PERIGOSO TUDO É DIVINO MARAVILHOSO. O astronauta já voltou da lua e eu na torre de Londres giro na saudade e no tempo da lua que se esconde em Times Square. Longe dos quadrados do tempo e dos tempos quadrados da saudade. MISTURAR TUDO. LER A REVISTA E ENCONTRAR LONDRES PSICODELICA NOVOS CAMINHOS EXPRESSSSSSSSSÃO. UM FILME QUE ESGOTA SAUDADE. FIM É SAUDADE. É SAUDADE. Hoje eu vi um filme e não senti saudade". (LEONE, Eduardo. “Saudadejásefoi”. "O Diário de S. Paulo". São Paulo, 4/3/69. Caderno 2, p.10).

O “novo” e o “velho” são colocados na “crítica de montagem” de Leone. É a tônica da nova fase do cinema no jornal. Em termos de linguagem cinematográfica, a renovação é perspectiva não só do cinema nacional, mas de todo filme realizado num mundo moderno, urbano, em que o homem vai à Lua, em que se vive rodeado de televisão, revistas e jornais. A fragmentação faz parte desse mundo, defendem um cinema que reflita a modernidade. E isso ocorre após a experiência de assistir a O bandido da luz vermelha. A renovação é a chave deste momento: a defesa de um cinema de autor que não reflete o novo mundo é condenada, assim como um cinema preconizado em moldes industriais, mas que traz em si a renovação da linguagem, não deve ser combatido.

Querer um cinema renovado significa também uma nova forma de crítica:

"Eu estava fazendo uma crítica de um cinema que se foi. Eu estava fazendo um discurso no velho espaço. Eu estava falando de bandidos. Eu estava esperando quinze anos para poder rever a crítica. E eu estou mostrando que os velhos truques acabaram, e que o papel está na gaveta, que as palavras envelheceram e que os velhos morreram. Não existe mais a sala linear, a cultura linear, a tela linear. [...] Os bandidos ainda precisam aprender muito. Os críticos precisam aprender muito”. (LEONE, Eduardo. “Made in Italy”. "O Diário de S. Paulo". São Paulo, 6/5/69. Caderno 2, p.8)

A renovação da linguagem tanto nos filmes quanto na crítica, a adesão ao tropicalismo e ao cinema marginal é a mudança central da trajetória dos alunos da ECA em O Diário de S. Paulo, que será analisada nesta comunicação.
Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Trajetória crítica. São Paulo: Martins Fontes, 2011.



ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. São Paulo: Cosac&Naify, 2003.



SCHWARZ, Roberto. O pai de família e outros estudos. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.



SGANZERLA, Rogério. Edifício Sganzerla: textos críticos 1 e 2. Santa Catarina: Editora da UFSC, 2010.

_______.. Rio de Janeiro: Azougue, 2001.



SOUZA, Jose Inácio de Melo. Paulo Emilio no paraíso. Rio de Janeiro: Record, 2002.



XAVIER, Ismail. Alegorias do subdesenvolvimento: cinema novo, tropicalismo e cinema marginal. São Paulo: Brasiliense, 1993.



_______. O cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.