/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
A instalação interativa e a comédia musical: estabelecendo aproximações
Autor
Fernanda de Oliveira Gomes
Resumo Expandido
Na comédia musical, a ação individualizada é vista por Deleuze como fonte criadora do movimento. Em seu “acontecimento”, ela começa por oferecer imagens sensório-motoras comuns, nas quais os personagens se vêem em situações que pedem ações como respostas. Mais ou menos progressivamente, suas ações e movimentos pessoais se transformam, pela dança, em movimentos de mundo que ultrapassam a situação motora. Dentro desta dinâmica, o autor Philip Rosen (2001, p. 346) indica ainda que o explícito artifício deste gênero expõe um manifesto à virtualidade e artificialidade cinematográfica, que pode autorizar o espectador a avaliá-la como performance e construção.

A dança surge diretamente como potência onírica que abre o espaço e oferece um mundo fluido às imagens: “a dança já não é apenas movimento de mundo, mas passagem de um mundo a outro, entrada em outro mundo, refração e exploração” (DELEUZE, 2005, p.79). A dança passa a ser um meio de entrar no mundo do outro, de introduzir o personagem no sonho do outro, assim como a relação entre o cenário e o movimento possibilita a passagem entre os mundos, o compartilhamento. Na exaltação das situações sensório-motoras, encadeamentos são intensificados, prolongados e multiplicados, formando um conjunto prolífero. Podemos então nos apropriar desta descrição que Deleuze faz do gênero da comédia musical e deslocá-la para a instalação interativa, que possibilita justamente essa entrada no mundo onírico do outro, seja este outro o conjunto formado pelas imagens armazenadas, à espera da interação, ou o conjunto de imagens formado pela própria experimentação do outro espectador, que faz parte de um conjunto maior, do todo da instalação interativa. Através de situações óticas e sonoras e da possibilidade do prolongamento de ações, nossos movimentos ganham outras dimensões, outros sentidos e passam a ser como danças improvisadas em um cenário receptivo à transformações de atos ordinários em experiências extraordinárias.

Podemos observar em algumas instalações interativas que apresentam um caráter lúdico, experiências que guardam muitas semelhanças com a experiência do indivíduo da comédia musical que redescobre seus movimentos, seu espaço e os objetos que o rodeiam. A instalação interativa Todo mundo sabe dançar, que está sendo desenvolvida pela autora deste trabalho, apresenta-se como uma espécie de resultado prático do processo de pesquisa de doutorado, também em desenvolvimento. Nesta obra o visitante é convidado a dançar com imagens pré-gravadas de bailarinos. Quando entra no espaço da instalação, uma câmera grava sua imagem e a projeta em uma tela diante dele, como um espelho, em tempo e tamanho real. O visitante vê a si mesmo integrado com a imagem também projetada de um bailarino em tamanho real que de certa forma reage aos seus movimentos. Ao sair da “pista de dança”, o visitante pode assistir a si mesmo dançando, pois sua imagem é transmitida em uma tela do lado de fora da instalação. Dessa forma, os visitantes podem assistir às performances uns dos outros e uma rede de criação e improvisação é estabelecida.

A pedagogia dos dispositivos de hoje se difere daquela pedagogia típica da modernidade, que ensinava aos espectadores como reagir às imagens, como se comportar e seguir uma disciplina no ambiente da recepção, tendo o cinema como modelo. No mundo contemporâneo, o que se evidencia é a performance, ou seja, os meios ajudam à construção de subjetividades e explicitam a imagem como construto. “Onde somos ‘imagens entre imagens’ se construindo, experimentando o mundo de muitos lugares, tornados interfaces, mediadores ou ainda figuras de controle” (BENTES, 2006, p.101).

Phillipe Dubois (2004, p.37-38) levanta como questão fundamental do processo artístico a inscrição do sujeito na imagem, ou seja, a dimensão do humano no artístico. Para o autor, as máquinas como instrumentos são elementos intermediários, inseridas entre o homem e o mundo, dentro do processo de construção simbólica.
Bibliografia

BELLOUR, Raymond. Entre-Imagens: foto, cinema, vídeo. Campinas: Papirus Editora, 1997.

BENTES, Ivana. Mídia-arte ou as estéticas da comunicação e seus modelos teóricos. In: BRUNO, Fernanda e FATORELLI, Antônio. Limiares da imagem: Tecnologia e estética na cultura contemporânea. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.

BERGSON, Henri. Matéria e Memória. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 2005.

______. A Imagem Movimento. São Paulo: Brasiliense, 1983.

DEWEY, John. Art as experience. New York: Perigee Books, 1980.

DUBOIS, Philippe. Máquinas de imagens: uma questão de linha geral. In: DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac & Naif, 2004.

ROSEN, Philip. Old and New: image, indexicality, and historicity in the digital utopia. In: ROSEN, Philip. Change Mummified: cinema, historicity, theory. Minneapolis, London: University of Minnesota Press, 2001.