/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
A estética do amadorismo no cinema e no telejornal
Autor
Felipe da Silva Polydoro
Coautor
Bruno Costa
Resumo Expandido
A produção e a circulação intensa de vídeos amadores problematizam as noções contemporâneas de realidade e representação – impactando a linguagem de diferentes objetos midiáticos. De um lado, a contínua hipermediação do cotidiano. De outro, o ímpeto de revelação do obscuro e de um contato imediato (não-mediado e contínuo) com a realidade empírica. O vídeo amador é testemunho feito de dentro que atravessa a cortina do secreto; paradigma da tela total a iluminar e colorir todas as camadas da vivência. A audiência considerável desses vídeos em sites como o YouTube, o uso dos registros amadores no telejornalismo e a incorporação de seus códigos em filmes de ficção vinculam-se, também, a um impulso de religação com o autêntico, o mundo empírico no seu estado bruto. Neste artigo, investigamos a apropriação dos registros amadores por dois objetos distintos: o telejornalismo (isto é, a inserção, nas tele-reportagens, de flagrantes captados por anônimos como documentação visual do ocorrido); e o filme de ficção (neste caso, a adoção da linguagem rudimentar do amador como artifício realista). Além disso, realçamos o caráter convencional, construído, tanto das noções de realidade quanto de representação vigentes e como essas convenções se expressam na proliferação da estética do amadorismo.

De modo geral, percebe-se que os noticiários televisivos se valem dos vídeos amadores – e também daqueles captados por câmeras de vigilância – como registro de um acontecimento no instante de sua ocorrência; como revelação no sentido de tornar o fato ocorrido visível e não apenas conhecido. Com o vídeo amador de flagrante o telejornal, que sempre operou na lógica do ao vivo, atualiza seu pacto com a realidade ao retirar as marcas da enunciação e realçar o estatuto de transparência em um momento em que a televisão se aproxima cada vez mais daquilo que Eco (1984) chamou de neotelevisão (a televisão que narra a si mesma). O vídeo funciona como atestado de veracidade que reforça a temporalidade do ao vivo ao veicular o fato como visto de dentro. É como se abrisse uma segunda tela sobre a primeira, uma tela que se abre como uma janela e, portanto, está mais próxima temporal e espacialmente do acontecimento.

No cinema, a renovação do realismo busca nos maneirismos típicos dos vídeos amadores uma nova forma de angariar autenticidade. A fotografia granulada, a imagem com pouca resolução, a instabilidade da câmera e os cortes pouco precisos já foram assimilados por filmes ficcionais com vistas principalmente a coincidir com uma noção de realidade em que abundam registros audiovisuais amadores.

Estes expedientes, largamente usados hoje em dia, conversam com uma nova estética do real que tem entre seus paradigmas o filme Bruxa de Blair (The Blair witch project, Daniel Mytick; Eduardo Sánchez, 1999). Além do uso da precariedade técnica como novo efeito de real (configurando uma versão cinematográfica contemporânea da notação do insignificante apontada por Barthes (1998) na escritura realista) ali se desenha a forma de pseudodocumentário em que ausência de indicadores claros de ficcionalidade também trabalha pela verossimilhança da narrativa. Seguindo a trilha aberta por esta estética do amadorismo, o cinema ficcional expande a área de atuação deste tipo de registro para diversos gêneros, o que indica a ubiquidade do fenômeno e a importância da fala do amador na configuração de uma nova transparência.

Como trajeto de investigação este artigo se propõe a traçar os contornos da influência destes vídeos amadores na reconfiguração de uma suposta linguagem da realidade e, correlatamente, observar como a apropriação da estética do amadorismo pelo cinema ficcional – especificamente no filme Cloverfield (Matt Reeves, 1999) – ajuda a conformar um novo tipo de realismo e uma nova transparência que serão basilares no uso dos vídeos amadores no telejornalismo.
Bibliografia

BARTHES, Roland. O grau zero da escritura e novos ensaios críticos. São Paulo: Cultrix, 1974.

______. O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988.

DANTO, Arthur C.. A transfiguração do lugar-comum. São Paulo: Cosac Naif, 2010.

ECO, Umberto. Viagem na irrealidade cotidiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

PASOLINI, Pier Paolo (1967). Observações sobre o plano-sequência. IN: Empirismo hereje. Lisboa, Assírio & Alvim, 1982, p. 193-196.

PENAFRIA, Manuela. O plano sequência é utopia. IN: LEMOS, André, PRYSTON, Angela et al (org.). Livro da XII COMPÓS. Rio de Janeiro: Meridional, 2004, pp 207-222.

RENOV, Michael. The subject of documentary. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2004.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico. Opacidade e transparência. 3ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.