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  Título
Prazeres visuais no pornô feminino
Autor
Mariana Baltar
Resumo Expandido
Nossa hipótese é que os filmes de Dirty Diaries inscrevem uma multiplicidade de olhares – e com isso de prazeres – ao rearticularem as coreografias dos números sexuais e também ao costurarem as relações entre os sujeitos na tela, a câmera e (através destas relações de interação e mobilidade) os espectadores.

O uso de termos como coreografias e números sexuais não é mero acaso, mas marca um alinhamento teórico aos estudos de pornografia desde o livro clássico de Linda Williams (1999). Em sua análise, a autora formula um conjunto de convenções narrativas que organizam as marcas tradicionais da pornografia, todas orientadas a partir do fio condutor da visibilidade, da necessidade e do desejo de mostrar. Seu argumento parte de uma analogia entre a pornografia mainstream (os “Hardcores”) e o musical, ambos pautados num delicado equilíbrio entre números de intenso espetáculo e êxtase (musicais para um gênero e sexuais para outro) onde a narrativa parece parar só para o deleite dos olhos (e do corpo) do espectador. A narrativa fornece a moldura para o visionamento do número espetacular (ponto ápice do excesso e da “mostração”); um prepara o outro e ambos são partes fundantes do agenciamento sensorial e passional proposto pelo filme.

É interessante pensar as implicações dessa comparação levando em conta uma tensão produtiva (sobretudo para a mobilização dos afetos e do engajamento sensório-sentimental) entre narrativa e atrações (conforme teorização de Gunning, 2006 e Bukatman, 2006). Nesse sentido, os números sexuais da pornografia se apresentam como um cinema de atrações e retiram sua força afetiva/passional (de mobilização de prazeres) desta potência atrativa-excessiva. Acredito que tais questões serão fundamentais para analisar os filmes de Dirty Diaries.

É preciso também ter em conta que os curtas foram realizados a partir de algumas regras bem definidas, conforme orientação das curadoras/produtoras do projeto: todas as diretoras são mulheres e todas as imagens deveriam ser realizadas a partir de câmeras de celular e/ou outras mídias locativas semelhantes. Assim, queremos refletir em que medida tal dispositivo engendra formas de olhar e mobilizar olhares e prazeres mais íntimos, cotidianos e excitantes? E também em que medida tal dispositivo articula uma rede intertexual vinculada ao que nos estudos contemporâneos de pornografia vem se chamando de netporn (Paasonen, 2010 e Attwood, 2007) e de post-porn (Llopis, 2010 e Preciado, 2002). Estes termos são empregados para dar conta de uma intensificação da virada política no interior do domínio da pornografia, ampliando e intensificando seus dispositivos de realização e circulação, sobretudo correlacionando mais intensamente noções de proximidade, intimidade e prazer visual.

Dirty Diaries se insere numa longa linhagem de abordagem feminista nos estudos de pornografia (desde Williams, 1999 passando por Attwood, 2007 e Stuttgen, 2009). Outros artigos e livros (Walter Kendrik, 1987, ou a coletânea Women Agaisnt Censorship, publicada em 1985) também buscam complexificar o debate sobre o pornográfico, e compreender suas dinâmicas e suas potenciais linhas de fuga e, sobretudo, precisando sua eficácia no engajamento passional e sensorial do público. Nesse processo, foram importantes o debate sobre o papel da pornografia gay e a reflexão sobre a pornografia feminista (por exemplo a edição 30 da Jump Cut de 1985 e as edições de Film Quarterly volumes 36 e 37, de 1983).

São referências e questões importantes para as análises do projeto Dirty Diaries que indicam de que modo o corpo em ação tanto do “mostrado” quanto do espectador, e, sobretudo, do corpo da câmera (principalmente em alguns dos filmes de vanguarda), recuperam a lógica mobilizada pelas formas de representação do corpo na tradição pornográfica. Trata-se de um caminho de reflexão que não apenas redireciona politicamente a pornografia, mas atenta para o papel decisivo dos dispositivos audiovisuais em tais reconfigurações.
Bibliografia

ATTWOOD, F. No Money Shot? Commerce, Pornography and New Sex Taste Cultures. In: Sexualities, vol 10 (4): 441-456, 2007.

BUKATMAN, S. Spectacle, attractions and visual pleasure. 2006.

GUNNING, T. The Cinema of attractions: early film, its spectator and the avant-garde. 2006.

KENDRICK, W. The Secret Museum. Pornography in modern culture. University of California Press, 1996.

LLOPIS, Maria. El Postporno era eso. Barcelona: Melusina, 2010.

MELENDEZ, F. Video Pornography, Visual Pleasure and the return of the sublime. 2004.

PAASONEN, S. Labors of love: netporn, Web 2.0 and the meanings of amateurism. In: New media & society, 12(8) 1297–1312, 2010.

PRECIADO, B. Manifiesto Contra-sexual. Madrid: Editorial Ópera Prima, 2002.

STÜTTGEN, Tim. Post/Porn/Politics. Queer_feminist Perspective on the Politcs of Porn Performance and Sex-Work as Cultural Production. Berlim: B_Books, 2009.

WILLIAMS, Linda. Hard Core. Power, pleasure and the frenzy of the visible. 1999.