/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Cinema paraguaio hoje: memórias, arquivos & fantasmas
Autor
Adalberto Muller Junior
Resumo Expandido
Marcado por duas das Guerras mais cruéis e devastadoras do continente americano (a Guerra da Tríplice Aliança e a Guerra do Chaco), e por uma das mais longas e tenebrosas ditaduras caudilhistas, o Paraguai teve seu processo de industrialização fraturado, e chegou ao século XX sem condições de acompanhar os desdobramentos do capitalismo industrial de seus vizinhos. Não é de estranhar que o cinema paraguaio tenha tateado ao longo do século XX, até quase desaparecer. No entanto, depois de mais de 40 anos de silêncio, o cinema paraguaio começa a "falar" no final ao longo dos anos 2000, através do esforço de jovens realizadores como Paz Encina e Mauricio Rial Banti. Ambos exploram memórias e arquivos da Guerra, a fim de desenterrar os ossos da História, libertando fantasmas e vozes aprisionadas no tempo. O registro documental dentro da ficção e o registro ficcional dentro do documentário se mesclam nos filmes de Encina e Rial Banti, sobretudo quando se considera o papel da memória.

Assim, câmera estática e distanciada em Hamaca Paraguaya (2006) quase anula o papel da interpretação, jogando toda a atenção para elementos naturais (árvores, nuvens, trovões, latidos) e para a narrativa oral/vocal. Aliás, o resgate do idioma guarani nesse filme e em Viento Sur pode servir de exemplo para se pensar a memória inscrita no arquivo da linguagem. As falas dos personagens, ainda que ficcionais, funcionam como testemunhos da história, recriando o que se pode chamar de uma situação-arquivo, na qual retornam os fantasmas da guerra. Já em Tren Paraguay (2011), Rial Banti realiza uma viagem imaginária nas ruínas de uma antiga linha de trem, e descobre, através dos arquivos vivos, o testemunho de mais uma fratura histórica (como em Benjamin, toda História é dor). Em seu mais recente filme, Viento Sur, Paz Encina revisita o tema da guerra, mesclando novamente uma narrativa oral a registros documentais - num processo ainda mais radical que Hamaca Paraguaya. E novamente aquilo que seria um jogo ficcional se converte em testemunho, o que borra ainda mais os territórios definidos de ficção e documentário. Em Overava (2012), em processo de finalização, Rial Banti recupera o mito dos tesouros enterrados durante a Guerra da Tríplice Aliança, e com isso mais uma vez realiza um processo de escavação do passado. A partir de reflexões sobre memória e arquivo, queremos pensar nessa comunicação alguns dos processos de representação e problematização da memória e da subjetividade, a partir de uma discussão sobre as fronteiras entre os registros documental e ficcional no novo cinema paraguaio, em especial na obra dos realizadores Paz Encina e Mauricio Rial Banti.

Bibliografia

ALCALA, Javier R. La imagen tiempo en Paraguay: un boceto incompleto (1900-2010). Disponível em: http://lorenzozucolillo.wordpress.com/2011/12/07/la-imagen-tiempo-en-paraguay-un-boceto-incompleto-1900-2010/. Acesso em maio de 2012.

ASSMANN, Jan; ASSMANN, Aleyda; HARDMEIER, Christof (org.) Schrift und Gedächtnis. München: Fink, 1984.

BENJAMIN, Walter. Über den Begrif der Geschichte. Hannah-Arendt-Manuscript, 1940. In. ARENDT [H.] und BENJAMIN [W.] Texte, Briefe, Dokumente. Herausgegeben von D. Schöttker und E. Wizisla. Frankfurt/Main: Suhkamp, 2006.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

LA FERLA, Jorge. Audiovisual pré-digital e pós-analógico na América Latina. Palestra proferida no Seminário Cinema, Tecnologia e Percepção, MAM, 2009.

LOPES, Denilson. No coração do mundo. RJ: Rocco, 2012.

RAMOS, Fernão. Mas afinal... o que é mesmo o documentário?. São Paulo: SENAC, 2008.

RICOEUR, Paul. La mémoire, l'histoire, l'oubli. Paris: Seuil, 2000.