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  Título
Arthur 2.0 e a interface que capta desejos # 2
Autor
maurício cândido taveira
Resumo Expandido
Quando vemos um filme no cinema não esperamos que nossas ações interfiram na narrativa, isto é, não experimentamos o sentimento de agenciamento. No entanto em alguns deles podemos nos defrontar com situações em que a narrativa é dinamicamente alterada pela nossa participação. Podemos interferir na história e ajudar, por exemplo, os personagens a resolver seus problemas e desejos. Estamos diante dos chamados filmes interativos.

Um detalhe: aqui entendemos agenciamento conforme (MACHADO, 2009: 173-181) no texto Regimes de Imersão e modos de Agenciamento. Agenciamento (Agency):“É o termo que os povos de língua inglesa utilizam para designar a sensação experimentada por um interator de que uma ação significante é resultado de sua decisão ou escolha (...) é experimentar um evento como o seu agente, como aquele que age dentro do evento e como o elemento em função do qual o próprio evento acontece”.

Os filmes Smoking e No Smoking (1993), de Alain Resnais, realizados em um meio analógico não provocam o sentimento de agenciamento, mas introduzem uma novidade antes da proliferação dos filmes propriamente interativos: simulam interatividade. São as obras audiovisuais, realizadas em películas, de melhor êxito entre as várias tentativas de simulação de “interatividade” com o espectador. Cada uma oferecem ao espectador seis finais diferentes. Mas os filmes fracassam quando obrigam o espectador a apenas seguir os doze finais possíveis da narrativa. Em nenhum momento o espectador se torna um inter-ator e experimenta a ação ou evento como agente. Temos apenas a figura do espectador que assiste passivamente aos dramas dos personagens. Em nenhum momento ele pode “ajudar” a realizar os desejos e o destinos de cada um deles. Os desencadeamentos narrativos, por exemplo, são independentes das vontades do espectador.

O DVD interativo Play Smoking/No Smoking (2009 - parte da tese de doutorado -ECA/USP) , de Maurício Taveira – uma remontagem dos filmes Smoking e No Smoking (1993), de Alain Resnais, propõe uma nova experiência de se relacionar com estas obras de Resnais - transforma o espectador em inter-ator. Em Play Smoking/No Smoking (2009) o inter-ator “navega” “decidindo” o destino das principais ações dos personagens centrais. Embora o controle daquele não seja soberano, absoluto, ele tem a possibilidade de realizar muitos das vontades dos personagens e também os seus próprios desejos. O inter-ator torna-se um agente e age em muitos dos desencadeamentos narrativos, mas a obra enfraquece dramaticamente. Pois exatamente no ápice de cada cena ou sequência dramática a narrativa para e temos a ruptura da ilusão e da impressão de realidade. O inter-ator volta a consciência de que está assistindo a um filme quando lhe é solicitado a clicar o mouse ou controle remoto. Estas interfaces, dessa forma, rompem com a magia e a impressão de realidade produzida pelo espetáculo cinematográfico de estrutura clássica.

O projeto do filme interativo Arthur 2.0 emergiu exatamente dessa reflexão e tem a intenção de conciliar esse problema que parece não ter uma solução tão simples: que tipo de interface permite contar uma história interativa de narrativa clássica sem a suspensão da ilusão e do rompimento de impressão de realidade? O trabalho que delineamos propõe uma reflexão dessas questões a partir da interface que denominamos de "Interface física-transparente", um sistema que integra softwares e dispositivos que permite a captação dos desejos de um inter-ator a partir da interação do inter-ator com a narrativa em uma TV ou projetor digital. Isso ocorre porque a interface está lá fisicamente e ao mesmo tempo não estão lá “visivelmente” interferindo na ilusão criada pela diegese em uma narrativa clássica.
Bibliografia

BORDWELL, David. Narration in the Fiction Film. Madison: University of Wisconsin Press, 1985.

COUCHOT, E . A segunda interatividade. Em direção a novas práticas artísticas. In: DOMINGUES, D (org). Arte e vida no século XXI. São Paulo: Unesp, 2003.

JOHNSON, Steven. Cultura da interface. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas & pós-cinemas. Campinas: Papirus, 1997.

MACHADO, Arlindo. Regimes de imersão e modos de agenciamento. In: MEDEIROS, M. B. de (org). A arte pesquisa. Ensino e aprendizagem da arte. Linguagens visuais. Vol.I. Brasília: UNB/ANPAP, 2009.

SCHELL, Jesse. A arte de game design – o livro original. Rio de Janeiro: Campus, 2010.

TAVEIRA, Maurício Cândido. Interface, linguagem e fruição nas obras interativas Play smoking/no smoking e Collabore. (Tese de Doutorado). Escola de Comunicações e Arte. São Paulo: ECA/USP, 2009.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico. A opacidade e a transparência. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984.